Exorcismos e exorcistas voltaram à moda. Nada mais apropriado, portanto, do que um livrorreportagem sobre o tema. Exorcismo, do jornalista Thomas B. Allen, relata o caso de um menino que, aos 14 anos, foi acometido de um grave distúrbio identificado como possessão demoníaca. O garoto foi exorcizado.

Mas estava o garoto possuído por um demônio?  A favor dessa hipótese consta apenas o diagnóstico religioso. Allen foi atrás da história e, na medida do possível, construiu um relato sobre o caso.

Foi uma tarefa árdua. Realizado em silêncio na época, o exorcismo do garoto somente se tornou público devido à indiscrição de alguns envolvidos, causada por motivos propagandísticos ou de curiosidade pessoal.

Publicidade
Publicidade

E conseguir entrevistas era ainda mais difícil: as pessoas não quiseram falar sobre o ocorrido, e muitas já estavam mortas. O menino, há tempos um adulto, não respondeu aos contatos do jornalista.

Recusa compreensível, mas que torna o diagnóstico religioso ainda mais duvidoso do que a própria natureza do assunto em si. Já os diagnósticos médicos sobre o caso foram feitos a partir de #Literatura médica e do disse-que-disse, por psicólogos e psiquiatras que sequer conheceram o paciente - sendo, dessa forma, quase tão duvidosos quanto o diagnóstico religioso.

O relato escrito pelo jornalista, católico e admirador confesso dos jesuítas, deixa subentendido, embora Allen jamais acuse de maneira direta, que a encrenca começou depois que o garoto, incentivado por uma tia, fez uso de um tabuleiro Ouija - exatamente como naquele filme de terror que você assistiu.

Publicidade

Eis aí um prato cheio para religiosos e supersticiosos da vida real apontarem dedos acusadores.

E os acontecimentos a seguir, as crises do garoto e as sessões de exorcismo, são terríveis. Ao contrário do clássico filme, o menino não vomita no padre; ele cospe, escarra e urina no religioso. E não fala outras línguas, preferindo xingar em inglês mesmo.

Mas temos algo curioso: a narrativa de Allen menciona as "contorções" do menino. O diário do caso, escrito por um dos padres e reproduzido no livro, fala em "convulsões". O que seria de Exorcismo sem algum, digamos, charme literário?

O que, de fato, ocorreu com o garoto só Deus sabe, e cabe a quem lê formular sua própria teoria sobre o caso. Contudo, o livro possui um lado real e aterrador, que é seu poder de sugestão - principalmente numa época em que religiões diversas voltaram a usar, mais uma vez, os favores de um velho arqui-inimigo para venderem suas crenças.

E agora eu conto a grande surpresa: a edição brasileira de Exorcismo (elogiada por Allen) pode ser usada como um tabuleiro Ouija. Eu prefiro acreditar que os editores consideram a hipótese de possessão demoníaca irreal, do que pensar que ofereceram às leitoras e leitores tamanho presente de grego.

Exorcismo. Thomas B. Allen. Trad. Eduardo Alves. Editora Dark Side. 270 págs. R$ 54,90. #Entretenimento #Livros