Exibido na noite de quinta-feira, 30 de junho, o episódio "Transexual, a busca pela identidade", do programa Caminhos da Reportagem, na TV Cultura, trouxe questões a respeito da experiência trans em diversos âmbitos, a partir de entrevistas com travestis, homens e mulheres transexuais, além da atriz Rogéria, que se identifica como homossexual.

Apesar de alguns problemas relativos à linguagem e à insistência em reproduzir o senso comum – expressões como "nem parece que é", "mudou de sexo", referências aos nomes de batismo –, o programa preocupou-se em dar voz às pessoas que experienciam essa condição e passam por dificuldades inimagináveis para aqueles que não precisam questionar sua própria identidade e readequar seus corpos.

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Pessoas transgênero estão sujeitas à violência desde muito cedo, tendo sua identidade de gênero deslegitimada por um discurso que procura essencializar a aparência dos genitais, logo no nascimento. Assim, pressupõe-se que nosso gênero deva estar de acordo com o suposto “sexo biológico” – digo suposto pois essa determinação é feita pelo médico baseada somente na existência de pênis ou vagina.

Essa determinação, aparentemente simples, é o primeiro ato de constrição das identidades de gênero, o qual será reforçado por atitudes subsequentes que incluem a adoção de códigos de vestuário e comportamento – o conjunto dos códigos adotados indica a expressão de gênero que se espera do indivíduo com identidade de gênero masculina ou feminina.

Para os defensores do determinismo biológico, que afirmam que só existe "macho" e "fêmea", configurações indicadas pelo sistema reprodutor, podemos rebater que exemplos de "transgeneridade" não ocorrem apenas entre os seres humanos - o que difere nossa transgeneridade seria a complexidade da nossa expressão social.

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Desde muito nova a criança cujo comportamento (ou seja, cuja expressão de gênero) não aparenta estar de acordo com o gênero que lhe foi designado é constantemente perseguida, pressionada, forçada a se “normalizar”. Trata-se de uma violência simbólica – não rara acompanhada de violência física – que possivelmente afetará o indivíduo pelo resto de sua vida.

O que fica claro com a reportagem é uma necessidade urgente, por parte da sociedade, de compreender o sofrimento desses indivíduos e procurar exercer alguma tolerância por saber que se trata de uma condição sobre a qual eles/as não têm controle. Isso, por si só, resultaria em menos preconceito e na abertura para se entender melhor a respeito da transgeneridade como um todo, que pode se expressar em formas múltiplas, únicas para cada pessoa.

As cirurgias pelas quais pessoas trans desejam ou não passar, por exemplo, é um tema delicado e que ainda causa polêmica porque é visto como uma espécie de regra para dizer se a pessoa é ou não transexual.

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Contudo, a verdade é que há pessoas trans que não sentem a menor necessidade de passar por intervenções cirúrgicas e isso deve ser respeitado, pois sua realização não depende das modificações físicas.

Observamos, com frequência, que as pessoas parecem incapazes de entender que existe uma gama muito ampla de expressões de feminilidade e masculinidade, e que nem sempre adequar-se ao que esperam de você é sinônimo de felicidade. Uma mulher trans é uma mulher, pois é essa sua identidade. O que ela fará em seu corpo para expressar essa identidade é uma escolha que só cabe a ela.

É certo que as ciências e a medicina ainda não descobriram todos os fatores envolvidos na transgeneridade (na verdade, não descobriram nem mesmo os fatores envolvidos na identidade de maneira geral), mas há um número considerável de pesquisas que demonstram a existência dessa condição a nível biológico. Sendo assim, não se trata de "acreditar" ou não que uma pessoa se identifique como alguém do outro gênero, pois a existência dessa pessoa já foi comprovada e legitimada cientificamente – e numa sociedade em que as ciências são vistas como discursos inquestionáveis, isso é muito importante. #Trabalho #LGBT