As #virgens juramentadas da Albânia, chamadas de burrneshas, são mulheres que assumem o papel masculino e passam a viver como homens para sobreviver e sustentar a família. A palavra "burrnesha", segundo a revista GQ, pode ser traduzida como "ele-ela" ou "homem-mulher".

Hoje, a prática ocorre apenas no norte da Albânia e, menos frequentemente, na Macedônia, mas há registros de pessoas que viveram dessa forma em outras partes da Península Balcãnica, como em Kosovo, Montenegro, Sérvia, Bósnia e na atual Croácia.

A tradição das virgens juramentadas se originou do Código (ou Kanuni) de Lekë Dukagjini, também conhecido como Kanun.

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Transmitido oralmente e seguido principalmente no norte da Albânia e em Kosovo, esse código de condutas e leis data do século XV e não tem relação alguma com a religião - tendo sido adotado tanto por ortodoxos albaneses quanto por muçulmanos. Segundo o Kanun, as posses são sempre herdadas pelos homens, ao passo que mulheres são propriedade da família e não têm praticamente direito algum.

Assim, a vida dos homens, responsáveis pelo sustento da casa, vale o dobro da vida das mulheres. No entanto, a vida de uma mulher virgem se equivale à do homem, valendo em torno de 12 bois. O voto de virgindade deve ser feito diante de 12 anciãos da vila onde a família vive, para que a mulher tenha, então, a permissão de viver e agir como um homem, podendo trabalhar, manejar armas, fumar e consumir bebidas alcoólicas, além de adotar um nome masculino e de se tornar proprietária de bens.

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As motivações para se tornar uma virgem juramentada variam, podendo acontecer por iniciativa da própria mulher ou de sua família. Numa região assolada pela guerra, era recorrente que os maridos e pais morressem em batalha e, quando não tinham herdeiros homens, cabia à mulher mais velha se tornar uma juramentada para cuidar da mãe e dos irmãos. Há ainda casos em que mulheres fazem o juramento para não ser obrigadas a se casar e até mesmo aquelas que relatam sempre terem se sentido homens.

No passado, a virgem que revogasse seu voto de castidade por qualquer razão era punida com a morte. Hoje, caso o façam, correm o risco de ser rejeitadas pela comunidade.

A prática permanece hoje como a única oficial, na #Europa, a permitir uma "mudança de gênero" segundo os moldes da sociedade. Quando a Albânia se tornou uma república socialista, em 1945, deu-se início a um processo gradativo de melhora da condição das mulheres que foram aos poucos adquirindo mais direitos, principalmente na região central e ao sul do país, e o regime comunista desencorajava os juramentos por parte das virgens.

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Contudo, na região norte ainda predominava o patriarcalismo e o apego às tradições.

Um filme italiano lançado em 2015, que recebeu o nome de "Virgem Juramentada", conta a história de uma jovem albanesa que viveu como homem por muito tempo, nas montanhas do país, mas que ao sair do vilarejo se encontra diante de situações que a fazem questionar seu estilo de vida. Também a escritora e vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Alice Munro, tratou do tema em seu conto intitulado "The Albanian Virgin", publicado em 1995.

Entre 2009 e 2013, a fotógrafa Jill Peters, cujo trabalho explora questões de identidade, sexualidade e diferentes culturas, viajou à Albânia para registrar a vida dessas virgens na série "Sworn Virgins of Albania", a qual ilustrou uma matéria para a revista GQ. Conforme explicado na revista, é provável que hoje existam apenas 100 ou menos virgens juramentadas no país.  #Curiosidades