Alguns amantes da fossa irão se familiarizar com o nome do filme. A histórica letra de “Canção da Volta” foi escrita por Antônio Maria e Ismael Neto e interpretada, nos anos 1950, por Dolores Duran. Mas o filme, que estreou na primeira semana de novembro, não consegue acompanhar a beleza e a sutileza sugeridas na música.

Canção da Volta poderia ter tido um nome mais condizente com a proposta e o sentido que quis dar o diretor ao filme: ser um drama em face de um casal que tenta recuperar os momentos difíceis do relacionamento, atormentado pela depressão e o desejo suicida de Júlia (Marina Person), sempre fugindo dos filhos e do marido Eduardo (João Miguel).

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Em meia hora de filme, a proposta que dá sentido à trama não desenrola: nada muda, os personagens não ganham importância, apesar de a atuação de João Miguel ser boa e dar certa vibração ao filme como um todo. Algumas tomadas de cena também são criativas e originais, assim como outras características do diretor. O que falta mesmo é um bom roteiro, propósito nos papéis das personagens, notadamente no da personagem Júlia, pouco explorada em sua subjetividade e que, às vezes, parece dizer ao espectador: “não é nada disso, mas é para parecer que é”.

O roteiro que deveria dinamizar a trama é, e todo mundo já sabe, fundamental para dar continuidade a cada cena. Sem roteiro, o filme pode ter os melhores atores e a melhor história, mas não avança, não convence.

Canção da Volta poderia ser um bom filme, mas fica pela metade.

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Olhando para o cenário atual do #Cinema no Brasil, não se verificam ainda produções compatíveis, por exemplo, com a maturidade já vista no cinema argentino. Parece que ainda nos falta entender o que é e o que não é cinema. Mas podemos tirar algumas lições de "los hermanos” que estão sempre envolvendo vários aspectos na mesma trama: política, história, psicologia e romance.

Assim, o filme não se prende totalmente a uma possibilidade, porque há várias. Assim, o filme ganha consistência, deixa o espectador na expectativa e, não raro, a cumpre. É uma lição, não uma regra. Cada cinema tem a sua singularidade, os iranianos conseguiram captar e passar a sua e estão aí, a mil. É quase certo que, um dia, o Brasil também terá a sua identidade cinematográfica, só precisam encontrar o ponto. Ou os pontos...

O primeiro longa-metragem com enredo fictício de Gustavo Rosa de Moura está em cartaz e merece ser visto, nem que seja para, depois, conhecer um pouco mais sobre a “Canção da Volta”, a música. #Cancaodavolta #critica