Ryota, personagem central do filme japonês "Depois da Tempestade", em cartaz nos cinemas das maiores capitais do país, é um adorável perdedor, um desses sujeitos despreparados para a vida que, tantas vezes, encontramos à procura de um trabalho, de um amor ou de um sonho que nunca se realiza. Escritor fracassado, afundado em dívidas, que ganha a vida como detetive, busca a saída para a sua má situação financeira na ilusão dos jogos de azar, enquanto espiona a ex-esposa na esperança de reconstituir sua #Família. Com um humor irônico e altamente palatável para o gosto ocidental, o diretor Kore-Eda Hirokazu imprime ao seu filme um tom suave e respeitoso para com os seus personagens, unindo humanismo e um gosto pela diferença, que tornam o filme um tempo de descanso nestes dias carregados de conflito e incompreensão.

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No filme, Ryota terá a oportunidade de tentar uma aproximação com a ex-esposa, Kyoko, e o seu filho Shyngo, durante um tufão, quando todos ficam presos na casa de sua mãe, Yoshiko. Mas assim como Ryota não consegue deixar de apostar nas corridas de cavalo, ele não poderá deixar de ser o que é: imaturo, inseguro, às vezes, irresponsável na sua relação com o filho. Assim, a resistência da ex-esposa e uma certa distância do garoto em relação ao pai, serão obstáculos difíceis de transpor. Mas, neste ponto, encontra-se um dos pontos fortes do filme, pois Ryota, apesar de todos os seus defeitos, é também um homem bem intencionado, de uma suavidade sedutora, e que, se ao mesmo tempo que enraivece aqueles que o cercam, também provoca a empatia destes pelo seu jeito desamparado e honesto de quem está tentando acertar em suas ações.

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Esse olhar, ao mesmo tempo realista e humano para o personagem, explicita a intenção do cineasta Kore-Eda de produzir uma crônica familiar que se localize entre o melancólico e o afetuoso, o que, sem dúvida, faz de "Depois da tempestade" um filme especial, não à toa', vencedor do prêmio internacional da crítica, na última Mostra de #Cinema de São Paulo.

Se Ryota é o personagem central da história, é na personagem da sua mãe, Yoshiko (interpretada de forma magistral pela atriz Kirin Kiki), que se concentram as melhores tiradas de humor do filme. E também o centro humanista deste, pois é através da delicadeza de uma mãe, tentando ensinar ao filho os melhores caminhos da vida, ao mesmo tempo em que tenta aceitar e lidar com suas falhas, que o diretor consegue transmitir de forma mais clara as intenções do roteiro. Essa personagem, que já viveu o bastante para apostar nas pequenas felicidades do dia a dia, ao tentar lidar com a imaturidade do filho, e auxiliá-lo na sua tentativa de estabilizar e normalizar a sua vida, acaba por nos dar uma lição de aceitação e tolerância para com os defeitos alheios.

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Esse tom de crônica familiar, assim como de crônica da sociedade japonesa atual, acaba por remeter à obra do cineasta japonês Yasujiro Ozu (1902 - 1963), diretor de "Era uma vez em Tóquio", e que se mostra uma grande influência para o filme de Kore-Eda. Neste está presente o mesmo humor dos filmes iniciais de Ozu, assim como a melancolia e a solidão dos seus últimos filmes. Também a ideia de circularidade temporal, com situações se repetindo cotidianamente, buscando a poesia contida no dia a dia. Elementos como esses são encontrados em "Depois da tempestade", com o próprio título remetendo a essa ideia, pois, se durante a tempestade existe a parada necessária para que o personagem Ryoto tenha a possibilidade de tentar uma reaproximação com sua família, ao final desta, o cotidiano e a normalidade da vida voltam a reger a narrativa. "Depois da tempestade" é, sem dúvida, um filme que merece ser visto, não só pela sua qualidade, mas, principalmente, pelas belas lições de vida que passa ao espectador.

Depois da tempestade (Umi yori mo Mada Fukaku, Japão, 2016, 1h50, 10 anos): Direção: Kore-Eda Hirokazu. Com Hiroshi Abe, Kirin Kiki, Yoko Maki. #Entretenimento