“Não será o último”, soavam os gritos de apoio vindos de uma plateia inconformada durante o #Concerto de Natal apresentado pela Banda Sinfônica do Estado de São Paulo na Assembleia Legislativa, na terça-feira (20). Entre sonoros arranjos originais de "Aleluia" de Handel e "Cayminiana" de Dorival Caymmi, os 82 músicos se despediram do público com discursos emocionados e tocaram, na maior parte do tempo, com lágrimas nos olhos.

O concerto, aliado a um abaixo-assinado com mais de 14 mil apoiadores, sensibilizou os deputados para a causa da Banda, que estava ameaçada de demissão coletiva em razão do déficit orçamentário previsto pela Secretária Estadual da Cultura para o próximo ano.

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Um dia depois, durante votação do orçamento na Assembleia Legislativa, decidiu-se, quase por unanimidade, a aprovação de uma emenda parlamentar que garante o repasse de R$ 5 milhões para a Banda Sinfônica no orçamento de 2017. No entanto, a emenda ainda precisa ser sancionada.

“A luta ainda não acabou. A Pensarte e a Secretaria da Cultura também precisam agir para que esse dinheiro chegue até nós”, observa o clarinetista da Banda Sergio Wontroba.

De acordo com depoimentos de integrantes nas redes sociais e através da página SOS Banda Sinfônica no Facebook, as atividades do grupo teriam sido suspensas até abril de 2017 e havia possibilidades de demissão coletiva já no início de janeiro. Os músicos trabalham em clima de tensão total desde que o Instituto Pensarte, que é a sua organização social gestora, assim como da Orquestra Jazz Sinfônica e Orquestra do Theatro São Pedro, havia anunciado que não deveria renovar o contrato com a Banda em 2017 devido ao orçamento reduzido.

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Desde 2015, os três grupos musicais sofrem cortes orçamentários de cerca de 20%, o que já implicou na redução de quadros com demissão de 17 músicos da Banda Sinfônica do Estado e 17 da Jazz Sinfônica.

Em nota à imprensa, a Pensarte informou que o acordo coletivo de trabalho com a Banda ainda está pendente de conclusão, mas que o Instituto está empenhado em manter o máximo possível de seus quadros (músicos e técnicos), respeitados os valores do aditamento do contrato atual.

Patrimônio cultural em risco

Se perder a Banda Sinfônica, o País se desfaz de um de seus mais importantes patrimônios culturais. Em seus 27 anos de existência, o grupo é uma das mais importantes formações musicais da América Latina, reconhecido mundialmente pela beleza com que une o popular ao erudito em temáticas que vão do cinema, circo ao balé e à ópera. Um de seus projetos mais notáveis é o de incentivo à criação musical brasileira, que desde 1990 já encomendou obras de grandes compositores como Ronaldo Miranda, Mário Ficarelli, Roberto Sion e Edmundo Villani-Côrtes.

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O fomento à educação musical também tem sido prioridade da Banda, que também promove a "Série de Concertos Didáticos", dedicada a crianças da rede escolar até o 5º ano, e o treinamento de formações iniciantes com a série “Para ver a Banda Tocar”.

Futuro musical nebuloso

“Hoje não venho aqui somente para pedir aos excelentíssimos senhores deputados para que salvem o meu emprego”, discursou a clarinetista e spalla da Banda Marisa Lui, durante o concerto de Natal. “Venho pedir que salvem a população da escuridão intelectual em que vivemos. Que deixem aflorar a sensibilidade através da arte e compreendam a sua importância na vida das pessoas”.

Marisa, que começou a tocar clarinete aos 8 anos de idade, faz parte da Banda Sinfônica desde a sua fundação. Em 2015, a crise na cultura já havia feito com que ela perdesse outro emprego como professora na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp). “Despedi-me de meus alunos dizendo-lhes para continuar estudando incansavelmente, mas por dentro confesso que me preocupo com o futuro desses jovens músicos”, desabafa. “Meu filho, de 21 anos, é academista da ópera de Berlim. Sempre que me liga com saudades e me fala de seus planos para voltar ao país, eu digo: 'Fique aí, filho. As coisas no Brasil não andam bem'”. #Banda Sinfônica do Estado de São Paulo #Secretaria Estadual da Cultura