O tráfico de drogas na ilha de Bali, Indonésia, é comandado por brasileiros. São, em geral, surfistas que usavam o esporte como forma de entrar no país e, uma vez lá, sob o disfarce de surfistas profissionais, praticavam atividade bem diferente de pegar ondas.

A jornalista australiana Kathryn Bonella conheceu e entrevistou vários desses chefões. E escreveu Nevando em Bali, livro-reportagem que conta essas histórias.

Bonella parece ter uma fascinação pelo tema. "Nevando em Bali" é, para ela, o terceiro volume de uma trilogia mórbida, iniciada com "No More Tomorrows" (Sem mais amanhãs, em tradução livre). Esse livro conta a história de Schapelle Corby, estudante australiana presa no aeroporto de Bali com quatro quilos de maconha.

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Corby alegava ter sido vítima de uma armação, e Bonella foi ao presídio Kerobokan, onde a moça cumpria pena, conferir essa história.

Ao conhecer a situação infernal dos detentos, a jornalista teve a ideia para seu segundo livro. "Hotel K" traz o depoimento de vários "hóspedes" desse "hotel', e mostra como a vida dentro da mais famosa prisão indonésia e a corrupção estão relacionadas.

Foi ao colher esses depoimentos que ela travou contato com os chefões brasileiros do tráfico - incluindo Marco Archer, executado em 2015. Surgiu então "Nevando em Bali", único dos três lançado no Brasil.

E esses traficantes surpreendem: são oriundos da classe média alta. Entram nessa como todos os demais: atraídos pela ilusão do dinheiro fácil. Gostam dos ganhos e da adrenalina proporcionados pela profissão, e desconsideram seu caráter ilegal.

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É curioso o relato em que um deles, ao se queixar do esnobismo por parte de um vendedor em uma loja de grife, diz: "me olhavam como se eu fosse um criminoso". Como se? Ele era.

Os depoimentos mostram como a indústria das drogas pode ser rentável para muita gente - e, por isso mesmo, difícil de ser combatida. O problema para os envolvidos é que a descida é tão rápida quanto a subida, talvez não apenas na Indonésia. É um livro que, apesar do lado absurdo, explica muita coisa.

A autora acrescentou um epílogo com o final de todos os entrevistados, e um encarte com fotos.

E a solução do problema? Talvez esteja na conscientização dos usuários, sejam eles de fato ou potenciais.

Nevando em Bali. Kathryn Bonella. Trad. Leandro Franz. Geração Editorial. 368 págs. R$ 54,00. #Livros #Literatura #Crime