Se há um elemento comum nos filmes dirigidos por Clint Eastwood é sua crítica ácida e aguçada dos valores da sociedade americana. Assim foi em 2003, com “Sobre Meninos e Lobos”, com uma história densa sobre preconceitos e decisões equivocadas tomadas entre quatro paredes.

No ano seguinte, com “Menina de Ouro”, Eastwood discutiu a relevância da eutanásia em um drama sério e comovente. E seguiu em frente falando sobre terceira idade (“Gran Torino”, 2008), espiritualidade (“Além da Vida”, 2010) e desconstruindo alguns heróis da América (em J. Edgar, 2011, e Sniper Americano, 2014).

Agora, em “Sully – O Herói do Rio Hudson”, Eastwood analisa a história real do piloto Chesley Sullenberger, que foi alçado à condição de herói quase que instantaneamente, após pousar um airbus sobre o rio Hudson, em Nova York, salvando 155 pessoas.

Publicidade
Publicidade

Mas seu olhar crítico, desta vez, é focado nos exageros da mídia e no cinismo das instituições que regulamentam as atividades aéreas nos EUA. A necessidade da imprensa em criar um herói público e a descrença da agência americana de aviação civil são sufocantes e, por vezes, inescrupulosas.

Em 15 de janeiro de 2009, o voo 1549 da US Airways apresentou problemas nas turbinas após um impacto direto com pássaros, logo após decolar do Aeroporto LaGuardia. Apesar do susto, o comandante conseguiu pousar a aeronave em segurança sobre o rio, no incidente conhecido como o “Milagre no Hudson”.

Interpretado com maestria por Tom Hanks, o comandante Sullenberger, ou apenas #Sully, é retratado como um profissional sério e respeitado, que não pensa duas vezes quando tem que decidir entre arriscar a vida de seus passageiros ou deixar inteira uma aeronave de US$ 98 milhões.

Publicidade

A princípio, a rápida ação do piloto lhe traz reconhecimento e respeito, mas ao longo do filme, vemos um homem psicologicamente afetado pelo constante cerco da imprensa e pela pressão das investigações.

Eastwood constrói um clima de tensão que permeia o filme do início ao fim, mostrando um Sully atormentado por pesadelos, enquanto enfrenta uma jornada para explicar sua decisão às autoridades aéreas. Para completar, o piloto ainda tem que lidar com problemas familiares e com a invasão de privacidade.

O incidente é retratado com maestria em flashbacks, desde o embarque de passageiros até a tensa descida sobre o Hudson. É inevitável a comparação com o longa “O Voo”, de Robert Zemeckis, estrelado por Denzel Washington em 2012 – a diferença é que, neste caso, trata-se de uma história verdadeira.

Ao final, Eastwood não entrega seu melhor trabalho, mas um filme competente, com roteiro enxuto e produção de primeira. Vale ressaltar a atuação de Aaron Eckhart (“Batman; O Cavaleiro das Trevas”) como o copiloto Jeff Skiles, braço direito de Sully.

Publicidade

Estreia adiada por causa da Chapecoense

“Sully – O Herói do Rio Hudson” teve lançamento digno de grandes produções nos EUA. No dia 2 setembro, ganhou uma sessão especial no Telluride Film Festival, como parte das comemorações do Dia do Trabalho americano.

A première aconteceu quatro dias depois, em Nova York, e o filme entrou em cartaz oficialmente no mundo inteiro entre os dias 8 e 9 de setembro. A estreia da produção nas telas brasileiras ficou agendada para o dia 1º de dezembro, exatos 82 dias depois do resto do planeta.

Mas o lançamento do filme por aqui acabou sofrendo mais um atraso. Na terça-feira, dia 29 de novembro, o voo 2933 da LaMia que transportava toda a equipe técnica da Associação Chapecoense de Futebol caiu em solo colombiano vitimando fatalmente 71 pessoas e deixando seis feridos.

Numa demonstração de sensibilidade, a Warner Bros. adiou a estreia do filme no Brasil. Só que agora “Sully” tem um páreo duro pela frente: “Rogue One – Uma História Star Wars. Vamos ver como o piloto da US Airways se sai contra os rebeldes e o lado negro da força. #Chapecoense #Cinema