Em edição especial que chega às bancas brasileiras em janeiro, a revista National Geographic traz, em sua capa, o que chama de “revolução do #Gênero”, em alusão a “novas identidades e comportamentos” que podem ser observados entre os jovens do século XXI. Na edição vendida nas bancas, um grupo de pessoas bonitas, cada uma com sua devida identificação, estampa a capa; na edição para os assinantes, por sua vez, está a foto de Avery Jackson, uma garota #Transgênero de 9 anos de idade e sua própria fala em destaque: “A melhor coisa sobre ser menina é que, agora, não tenho mais que fingir que sou menino”.

A iniciativa, apesar de bastante positiva, pode ser criticada em certos pontos, principalmente pela forma como aborda uma “revolução” a partir de supostos “novos” gêneros, sendo que não se trata de gêneros novos, mas de expressões recorrentes que vêm sendo nomeadas e estão finalmente se tornando visíveis.

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O acesso do jovem contemporâneo a novas maneiras de nomear sua identidade de gênero não significa que estão sendo “criados” novos gêneros, uma expressão perigosa que pode ser usada contra a própria revista e aqueles que apoiam a existência e identificação dessas expressões diferenciadas.

Sair da simples polarização colocada entre homem (masculino) e mulher (feminino) expõe a complexidade da vivência humana e como a restrição a um binômio é reducionista quando falamos em expressões e aparências de gênero. Nesse sentido, a National Geographic acertou ao demonstrar que a simplificação das identidades não cabe mais em nosso mundo – a bem da verdade, nunca coube.

Ao se preocupar em listar os múltiplos conceitos usados pelos ativistas e estudiosos do gênero, a revista demonstra a qualidade da pesquisa realizada, muito embora a quantidade de novos termos pareça assustadora para os que já abominam aquilo que ficou recentemente cunhado como “ideologia de gênero” – e, agora, tenho visto também o uso de “ideologia transgênero”, termo inventado aparentemente para condenar a transgeneridade.

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Outra abordagem importante da revista está na consideração das questões sócio-culturais que determinam diferenças e semelhanças entres os gêneros ao redor do mundo e como as crianças enxergam o que é ser “menino” e o que é ser “menina”. Os entendimentos em relação ao que é o gênero e até mesmo ao que é o sexo, de fato, mudaram ao longo da história, algo que vem junto a novas descobertas e estudos em áreas como a biologia, a medicina, a psicologia, a antropologia, a sociologia etc.

Por incrível que pareça, apesar de tudo o que já foi publicado, há uma permanência da relação entre o feminino e a inferioridade quanto ao papel da mulher, algo que se repete em inúmeros países. Enquanto o homem deve demonstrar características como virilidade, coragem e força, cabe à mulher ser delicada, emotiva e sensível, o que resulta em uma grande limitação do que ela pode ou não fazer, ao passo que indivíduos do gênero masculino tipicamente têm maior liberdade.

A leitura é densa pela quantidade de informações contidas em todas as páginas da publicação, o que pode provocar uma reação de confusão em leitores que são leigos em relação ao tema, mas é um material valioso para quem deseja compreender um pouco mais da complexidade das questões de gênero e porque é preciso abordá-las repetidamente.

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Juntamente com a pesquisa para a edição de janeiro foram realizadas filmagens para um documentário cujo lançamento está previsto para junho, apresentado por Katie Couric. #Cultura