Das ficções ao imaginário popular hodierno, os zumbis permeiam nossa arte e nossas mentes desde os anos 80 pra cá. Talvez achem forçoso chamar de arte as produções com tal temática “rasa” e, ainda mais, pressupor que há um ‘imaginário’, um arcabouço de imagens psicológicas, de profundidade jungiana, no que para muitos não passaria de meros produtos de entretenimento de uma indústria saturada em busca de novas formas de chocar e então prender a atenção do mercado jovem consumidor. Entretanto continuo pensando que algo tão imiscuído em nossos meio culturais deve sim significar algo. Mesmo que signifique uma insignificância em nossas vidas, poderia abrir caminhos para entendermos o que nos falta para necessitarmos e difundirmos algo tão insignificante.

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Por que os zumbis nos fascinam?

Meu primeiro #zumbi, esse eu não me esqueço, o vi ainda na infância e o que eu senti foi muito além de silples medo.

Essa sensação me permeia e perpassa até agora, e ainda é difícil nomeá-la, discerni-la, situá-la nas gavetas emocionais e lógicas do meu ser individual e social. Mas, pondo em termos práticos, era a sensação de estar só, de ter em suas mãos o mínimo e o mais basilar apenas para sua sobrevivência e subsistência, e de ter que ir ao extremo para tal. Esses simples requisitos podem extrair de uma pessoa o que há de mais autêntico, de mais pungente em sua personalidade, aquilo que, sem isso, não sobreviveria, seja material ou moral.

Os jogos, livros, filmes, etc., são tantos que, caindo na tentação de mencioná-los, não sobraria mais espaço nesse artigo.

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Suas matizes, tão variadas que enfatizam, cada obra, um aspecto diferente desse universo temático: a forma de organização humana, as contendas instintivas, as dissoluções da ordem vigente, a contradição e logo a busca pela redefinição do humano ao ver e interagir com esses mortos-vivos, ou a simples questão da existência humana na solitude em que os personagens vagam num mundo onde nada é mais como era antes.

Os zumbis se inserem numa rede ficcional ainda mais ampla: a pós-apocalíptica. Nessa, as variações são maiores, como os monstros gigantes e as destruições urbanas massivas dos orientais, mas o substrato é o mesmo. Algo mudou. E foi preciso um abalo nas nossas estruturas, um acontecimento singular, forte o bastante para desconstruir tudo o que conhecemos, ou pensamos conhecer.

Até Saramago se rendeu ao apocalipse. Em Ensaio Sobre a Cegueira todos precisaram ficar cegos, sem motivo nem explicação alguma, para poderem se enxergar novamente. Pessoas de diversos segmentos sociais, médicos, prostitutas, foram obrigados a redescobrirem-se a si mesmos e, antes, admitirem não ter tanta certeza assim de quem realmente são, do que são capazes, para poderem achar um novo/velho lar, juntos.

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Quem são os verdadeiros zumbis

Num mundo onde não sabemos quem somos, onde temos dificuldade de reconhecer e construir nossa imagem sem selfies, onde não temos outra moeda além da nossa força de trabalho para medir nosso valor, mais circunscritamente, onde a meritocracia é herdada e a maioria nem sabe o nome do pai para herdar as dívidas do velório, onde tudo é de alguém, onde a cada esquina há um lugar onde não se pode entrar, pois se está de chinelo, ou simplesmente não se tem dinheiro para consumir o que quer que esteja lá dentro...

Nesse mundo, a pulsão de morte ofusca a pulsão da vida, os mortos não estão nem vivos nem mortos; se erguem e andam sem vida, sem desejos, sem motivo para existir. Nesse mundo onde lutamos poder construir uma desconstrução ou pelo simples direito de desconstruir tudo que for arcaico no imaginário coletivo. Nessa recém descoberta apropriação cultural, alguns diriam, afinal as lendas dos zumbis têm matizes africanas e não falta quem os compare com o papel do negro na constituição do país; um não-homem que anda, que trabalha, e só. Nesse mundo de novas escravidões sob máscaras de liberdade, onde a liberdade é mais um produto. Aqui, nesse mundo, os zumbis nos fascinam. #Cultura #Inconsciente coletivo