Quando se trata de uma adaptação cinematográfica de uma obra que repercutiu em outro meio, no caso, mangá/anime, é preciso analisá-la em alguns aspectos.

Ignorando a sua fonte de inspiração, funciona como uma narrativa independente, isto é, a história que se propõe a contar cativa o público e entrega um roteiro coeso?

É um trabalho que acrescenta algo a obra original, complementando-a ou até mesmo a superando, é uma mera reprodução sem grande inspiração que em nada soma a produção que se baseia ou é uma adaptação que fracassa totalmente chegando a se tornar uma afronta a base de fãs da estória original?

O longa navega no meio termo em ambas as questões, não sendo motivo de exaltação desmedida e nem de execração pública.

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Enredo

Ambientada em uma Tókio futurista ciberpunk, nos deparamos com uma sociedade já habituada ao conceito de “aperfeiçoamento cibernético”, inserção de componentes tecnológicos em organismos vivos com a finalidade de aprimorar ou restaurar desempenho de atividades humanas. A megacorporação Hanka financia um projeto de realização inédita: uma consciência humana operando um corpo inteiramente sintético, dando vida a Major Mira Killian (Scarlett Johansson), que passa a prestar serviço a um departamento governamental voltado a investigar cibercrimes. Durante reunião entre representante da Hanka e líderes políticos, ocorre um atentado por meio de hackeamento de consciências, resultando na morte dos presentes no encontro. Major, junto aos integrantes da seção 9, passa a investigar a autoria do ataque e as motivações que levaram a realização do ato homicídio.

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O que empolgou

A adaptação visual dos personagens chaves foi bem executada.

O primeiro ato tem um bom ritmo.

As atuações são seguras e não comprometem. Destaque para talentosíssima Juliette Binoche (Dra. Ouelet) que em pouco tempo de cena consegue passar o amor maternal que sua personagem nutre pela protagonista junto ao sentimento de angústia por se vê forçada a cometer atitudes questionáveis.

Apresenta sopro de originalidade e pratica um saudável exercício de imaginação sobre um tema cada vez mais presente no cotidiano das pessoas: o convívio intensificado com a onipresente tecnologia. Embora, isso seja mais mérito da obra original do que uma sacada inspiradora dos roteiristas.

O que decepcionou

A trilha sonora pouco acrescenta. Anos luz da trilha do anime, que comparece apenas no erguer dos créditos.

Uma boa experiência imersiva necessita de um ambiente físico com personalidade, que marque presença mesmo em segundo plano. Os recursos visuais para retratar a Neo-Tókyo falham miseravelmente nesse quesito de tão banais.

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Normalmente, para apagar soluções de roteiros aceitáveis em outros meios, mas tidas como absurdas na tela grande, injeta-se dose de complexidade e verossimilhança nas adaptações de quadrinhos ou assemelhados. Porém, nesse caso, ocorreu a lógica inversa. Tirou-se muito da reflexão filosófica existencial que tem grande destaque no anime, um dos motivos do culto que passou a receber, por apresentar um roteiro denso e conceitualmente consistente, diferindo-se da ação descerebrada e infértil reinante, e centrou-se no dinamismo das sequências de combate empobrecendo drasticamente a estória. Será que a síndrome Blade Runner voltou a agir convencendo os produtores de que a densidade esperada seria inacessível ao público?

Apesar de competentes tecnicamente, as cenas de ação pecaram por serem mornas. Especialmente no último grande combate que exigia intensidade e grandiloquência para um desfecho que satisfizesse a sede de destruição do público, que talvez se sentisse recompensado mesmo se não muito empolgado com o que vira até ali.

Novamente, o anime se sai melhor.

Conclusão

Se jamais teve acesso ao trabalho de 1995 e está com vontade de assistir um blockbuster leve, mas que apresente uma proposta mais sofisticada pode ser uma boa pedida. Se for fã do anime, saiba que saíra do #Cinema com a sua devoção renovada quanto à obra original. Nota 6. #critica #Ghost in The Shell