Há pouco mais de um ano perdemos um dos maiores astros do rock britânico, David Bowie. Ele se travestiu, foi o homem do espaço que pousou na Terra para confundir, intimidar e levantar uma análise a respeito das questões de gênero.

O final dos anos 1960 foi marcado por muitos acontecimentos tanto na política quanto no comportamento dos jovens, que estavam se abrindo a um novo tipo de pensamento, sendo considerado impróprio para os intelectuais e pessoas conservadoras da época. Nesse meio surgia um jovem loiro e um pouco tímido, que estava mais para ser um novo Bob Dylan, louco para expor toda sua extraordinária visão do mundo ao lançar seu primeiro álbum intitulado David Bowie (1967) e o interessante The Man Who Sold the World (1970) com o hit “All the Madmen”.

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David Robert Jones ou David Bowie, o segundo nome é mais convincente, é simplesmente uma pessoa que não conseguimos imaginar a sua inexistência no cenário da cultura popular. Despontou em 1969 com o álbum Space Oddity, era o primeiro passo de seu alter ego Major Tom, canção-título que foi pano de fundo para a chegada do homem a Lua. Sua imagem diferente impressionava algumas pessoas muito antes do surgimento de Ziggy Stardust.

Sound and Vision

Em 1973, Bowie lançou o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. O rock agora seria comandado por um alienígena chamado Ziggy, uma mensagem para o sentido de inadequação comportamental para a época. Daí pra frente o sucesso aumentou em grandes proporções, com as canções “Starman”, “Rock 'n' Roll Suicide”, “Suffragette”, “Ziggy Stardust”.

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Bowie começou a fazer apresentações históricas entre os anos de 1972 a 1974, usando roupas femininas e maquiagem como forma de expressão para um novo conceito de imagem que se confundia com sua música. Aladdin Sane, álbum de 1973, foi um divisor de águas, se tornando o mais bem-sucedido até então, incluindo os sucessos “The Jean Genie” e a faixa-título.

É impossível não se deixar hipnotizar pelo raio no rosto de Bowie, o mesmo raio que seria referência no futuro para artistas como Lady Gaga, que ainda nem tinha nascido. Em 1974, o subestimado Diamond Dogs, foi uma espécie de despedida de Ziggy Stardust, álbum inspirado no livro 1984, de George Orwell, que emplacou o clássico “Rebel Rebel”.

Bowie surgiu em 1975 cantando jazz, no álbum Young Americans, mais uma aposta na mudança de imagem e sonora, exemplos como a música “Fame”. Cada vez mais magro devido o consumo excessivo de cocaína e outras drogas do qual ele era dependente, viveu um momento delicado depois de ter algumas overdoses.

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Em 1976, lançou Station to Station com a persona de Thin White Duke, álbum com estilo funk e uma demonstração do pop alemão eletrônico.

Changes

No fim dos anos 1970, Bowie decidiu mudar de país e comportamento, agora vivendo em Berlim, na Alemanha. O exílio ficou conhecido como a Trilogia de Berlim, uma sequência de três álbuns lançados entre 1977 a 1979, todos bem sucedidos entre eles o clássico Heroes.

Low (1977) surgiu com uma sonoridade instrumental e um pop fora do padrão, uma crítica ao contexto do estilo musical dito popular, com canções como “Sound and Vision” e “Be My Wife”. Em Heroes (1977), a faixa-título é um dos seus maiores hinos, que conta a história de um amor impossível separado pelo muro de Berlim.

Lodger (1979) marca o fim da colaboração com o produtor Brian Eno. O álbum tinha canções como “Look Back in Anger” e “DJ”. O álbum foi uma resposta para a estada de Bowie em Berlim, fase que o ajudou de maneira musical e espiritual.

Fame

Em 1980, Bowie foi para os Estados Unidos e lançou Scary Monsters (And Super Creeps). Foi um discurso mais autobiográfico, relatando tudo o que ele viveu na década de 1970. Esse disco tem o uso de guitarras e batidas eletrônicas, volta ao passado resgatando Major Tom em “Ashes To Ashes”, considerada uma continuação de Space Oddity.

Em 1983, totalmente repaginado com Let's Dance, que colocou todo mundo pra dançar com “Modern Love”, “China Girl” e a faixa-título, além de uma colaboração com o a banda Queen na canção “Under Pressure”. Álbum mais comercial de sua carreira, com um som dançante e sofisticado, foi como um pescador pegando peixes no mar, trouxe um enorme público da nova geração para ele.

Agora ele era um superstar na mesma linha de Michael Jackson, Madonna, Prince e Bruce Springsteen. Depois do sucesso de Let's Dance, lançou mais dois álbuns com a pegada pop, partindo para o R&B e o uso de sintetizadores, mas que tinham linguagens diferentes, Tonight (1985) e Never Let Me Down (1987). Ele chegou ao fim dos anos 1980 com o status de lenda que fazia shows históricos com estádios lotados.

Década de 1990 e 2000: de eletrônico ao neoclássico

O começo dos anos 1990 foi marcado pela colaboração com a banda Tin Machine, que não durou muito. O casamento com a modelo somaliana Iman Abdulmaji, e a passagem do rock para a música eletrônica.

Esteve duas vezes no Brasil. Em 1990, com a turnê Sound and Vision. Fez apresentações na Praça da Apoteose, no Rio de Janeiro, e no Parque Antártica e na casa de shows Olympia, ambos em São Paulo. Em 1997, esteve pela segunda vez, com a turnê Earthling, apresentando-se em Curitiba, Rio e São Paulo.

Alguns álbuns tiveram um sucesso que apenas contemplou a sua carreira, Black Tie White Noise (1993), The Buddha of Suburbia (1993), Outside (1995), Earthling (1997), 'Hours... '(1999), Heathen (2002) e Reality (2003). Todos considerados ambiciosos e brilhantes.

Depois do último álbum, Bowie desapareceu da música por dez anos, estava totalmente dedicado à família e aparecia eventualmente.

Década de 2010

Para a surpresa de todos, em 8 de janeiro de 2013, no dia que completou 66 anos, surgiu o álbum The Next Day, que foi o seu retorno triunfal depois de um hiato de dez anos. Bowie trabalhava na produção do álbum desde 2010, e mantinha uma rotina sigilosa, longe dos holofotes, para ter privacidade e manter tudo no lugar.

O disco tem como destaque a canção “Where Are We Now?”, que foi vista um milhão de vezes na plataforma YouTube. A letra falava dos anos em que Bowie viveu em Berlim com sua esposa e seu filho Duncan.

Logo em seguida, veio o sucesso com “The Stars (Are Out Tonight)”, “Love Is Lost”, “Valentine's Day” e a faixa-título. Além de uma sequência de videoclipes com a participação de estrelas de Hollywood, como Gary Oldman, Marion Cotillard e Tilda Swinton.

Bowie não tinha a intenção de sair em turnê depois do lançamento do álbum, como também não se apresentou em nenhum programa de TV. Em 2014, lançou a coletânea Nothing Has Changed, uma compilação em comemoração aos seus 50 anos de carreira, que trouxe alguns singles inéditos, como “Sue (Or in a Season of Crime)”.

No dia 8 de janeiro de 2016, completou 69 anos, o que coincidiu com o lançamento de Blackstar, que se tornou seu último álbum. Bowie lutava contra um câncer no fígado, mas não resistiu vindo a falecer no dia 10 de janeiro em seu apartamento em Nova York.

Bowie fez de sua morte uma obra de arte, devido o conteúdo desse último álbum que o tema de morte recorrente, especialmente na faixa “Lazarus”, que se tornou sua a canção de despedida. O álbum teve uma forte aclamação tanto de crítica quanto comercial, permanecendo três semanas consecutivas nas paradas britânicas e no topo da Billboard 200 nos Estados Unidos.

Além de ser um cantor de voz inconfundível, com forte presença de palco e considerado o camaleão de rock devido a constante modificação em sua imagem.

Fora dos palcos, teve uma brilhante e aclamada carreira no cinema, entre as suas atuações mais conhecidas estão O Homem que caiu na Terra (1976), História de um Gigolô (1978) com Marlene Dietrich, Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída (1981), Fome de Viver (1983) com Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Em Absolute Beginners (1986), Labirinto - A Magia do Tempo (1986) se tornou um sucesso musical e com o público infantil.

Foi Pôncio Pilatos em A Última Tentação de Cristo (1987), de Martin Scorsese. Foi também o agente do FBI Phillip Jeffries em Twin Peaks - Os Últimos dias de Laura Palmer (1992), interpretou Andy Warhol em Basquiat (1996). Em 2006, deu vida a Nikola Tesla, físico pioneiro, no filme O Grande Truque. Deu voz ao personagem Maltazard na animação Arthur e os Minimoys, como também para o personagem Lord Royal Highness do desenho animado Bob Esponja: Calça Quadrada.

Na década de 1970, assumiu-se bissexual, apesar de ter tido relacionamentos conservadores. Foi casado desde 1992 com a modelo Iman, com quem viveu até o fim de sua vida. Tiveram apenas uma filha, Alexandria Zahra, em 2000.

Antes disso teve seu primeiro filho, o cineasta Inglês Duncan Jones, que nasceu de sua união com atriz Angela Bowie, de quem se separou no final dos anos 1970.

David Bowie certamente foi a maior estrela do rock, um artista que conseguiu fazer tudo o que podia dentro dos seus anos de atividade. Saiu de cena na hora certa e voltou quando sentiu vontade. É considerado uma forte inspiração para artistas como Prince, Boy George, Madonna, Lana Del Rey, Lady Gaga e bandas como The Cure, Nirvana, Arcade Fire, Duran Duran e Joy Divison. #DavidBowie #Cultura