Há um lado magnífico da indústria cinematográfica pouco explorada pelos grandes prêmios do cinema e esquecido devido à passividade da sociedade contemporânea em absorver as produções Hollywoodianas. Dentre diversos exemplos, o filme sueco 'Morangos Silvestres' (1957), escrito e dirigido por Ingmar Bergman, pode ser definido como um trabalho de percepção da vida de um homem através de sua mente.

Mesmo indicado ao Oscar em 1960 na categoria de Melhor filme (estrangeiro), pode-se dizer que as produções europeias terminam esquecidas na história, mas o que é inegável são as verdadeiras lições de vida manifestadas nas produções de Ingmar Bergman, como em 'Morangos Silvestres'.

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A história se inicia com Isak Borg (Victor Sjöström), um professor de medicina que ao temer a aproximação da morte começa a ser abduzido por lembranças e pensamentos a respeito da sua integridade com as outras pessoas. De acordo com o professor, “a nossa relação com as pessoas consiste em discutir com elas e criticá-las”, logo, isto fez com que ele se afastasse de toda a sua vida social. Na verdade, Isak precisa viajar à Lund para receber o grau honorário da Universidade por ter conquistado cinquenta anos de carreira, sendo necessário percorrer o caminho acompanhado de Marianne (Bibi Andersson), sua nora, com quem a relação é apenas de tolerância.

Durante a viagem, conhece uma moça que está sempre com dois companheiros, o que provocou no médico a necessidade de recordar-se da sua adolescência e de quando conhecera a sua falecida esposa.

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Pelo caminho, também conheceu um casal que mais uma vez o fez se lembrar de sua vida matrimonial conturbada. O mais interessante do filme são os momentos em que a sua mente é invadida por sensações e lembranças do seu passado, demonstrando a sua forma de agir com o ser humano.

Isak é um senhor e um homem perturbado pela necessidade de querer saber sempre mais e basear-se em fatos comprovados pela ciência, mas como diz a sua esposa em uma de suas lembranças: “Você sabe tanta coisa e ainda assim não sabe nada.”

Após enfrentar vários delírios sobre o seu passado e vida, eis que semelhante à história de espíritos do natal, o senhor é embalado por um sentimento nostálgico e melancólico através de um mentor que o reprova friamente, como ele próprio sempre agiu em seus julgamentos. Certamente, Isak não possui nada de especial, mas ao reconhecer-se como um homem que desperdiçou a sua vida através da indiferença humana, torna tudo mais bonito e completa a beleza da magnífica obra de arte que é assistir às produções europeias.

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Ingmar Bergman foi excelente em tudo o que se propôs a criar, simplesmente. É impossível assistir à 'Morangos Silvestres' e não torná-lo parte da lista dos seus filmes favoritos, porque ele é incrível na sua simplicidade de sentimentos humanos. Os demais filmes escritos e dirigidos por Bergman têm um pouco ou muito disto: A simplicidade dos sentimentos transformados em uma obra de arte que muda a nossa percepção de mundo desde o primeiro minuto em que assistimos. É disto que o ser humano gosta: ser compreendido em seus erros e encontrar-se em cada forma de arte manifestada. O ser humano ama sentir-se acolhido mesmo sendo um completo errante que se julga conhecedor de todas as teorias, mas que ainda não aprendeu a tocar em outra alma humana.

Isak possui em seu ser um pouco de cada um de nós e foi uma pena ter reconhecido os seus erros tão próximo da morte, quando a solidão o aprisionou num mártir sem fim. Pode-se dizer que em toda a sua gama de conhecimentos em base da medicina, não foi capaz de fazer ressurgir a verdadeira importância em exercer a sua profissão. Incapaz de cuidar da sua esposa e do seu filho, que se tornou um ser violento ao ponto de negar-se a ser um bom pai e sua nora tornou-se indiferente aos seus sentimentos, relutando perante o seu pedido mesmo que em silêncio de perdão, enquanto Isak teme a morte solitária e infeliz.

Mais tarde a sua mente é novamente inundada por lembranças daquele lindo pé de morangos silvestres, onde a sua amada era seduzida por um outro rapaz, e percebemos que, na verdade, Isak é apenas ressentido por nunca ter se sentido amado por alguém. Porque o que falta em todo sofredor é um pouco de amor universal. Aqueles contos em que somente o amor verdadeiro é capaz de salvar o príncipe ou a princesa de uma maldição talvez possua a sua própria dose de realidade, porque apenas o amor pode contra todas as formas de maldade. O velho sofredor que não sabe o que sente, justamente porque se privou de sentir durante toda a sua existência, contaminando todos em sua volta, deixando como marca o amargor da solidão e da falta de caridade, da falta de carinho. Precisava ser assim? Claro que não precisava. Mas, infelizmente ele percebeu tarde demais, tão tarde que seria difícil contornar a situação, porque a sua esposa havia morrido e o seu filho tornara-se um homem tão sombrio quanto ele.

E existe algo bem pior do que nunca ter se sentido amado e protegido por alguém: não ser capaz de amar outra pessoa como gostaria de ter sido amado. O amor é a solução e a sociedade é dissimulada ao lidar com os sentimentos de #Rejeição, porque realmente a nossa relação com as pessoas consiste em discutir com elas e criticá-las.

Por fim, precisamos compreender o que levou Isak ao mar de vazio e solidão em seu mundo particular: a saudade daquele sentimento… Qual o nome dele mesmo? #Resenha #MorangosSilvestres