A movimentação que levou ao cancelamento da exposição "QueerMuseu" [VIDEO] pelo Santander Cultural esta semana trouxe novamente à tona um ódio e um desprezo que não surgiu nos últimos dias: aquele direcionado ao "#Queer". O termo, que passou a ser usado em fins da década de 1980 e início de 1990 como um guarda-chuva para se referir a uma série de auto-identificações no âmbito sexual culturalmente marginalizadas, tem sido equivocadamente simplificado como mero sinônimo de #LGBT. Há, sim, uma relação bastante estreita entre queer e LGBT, mas é importante não trocar um pelo outro indiscriminadamente.

No meio acadêmico, esse termo se refere a uma "evolução", por vezes dissidente, dos estudos gays e lésbicos que se proliferou nas universidades norte-americanas principalmente a partir dos anos 90.

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O objetivo de quem adotava essa palavra era o de se distanciar de uma linha de estudos tradicionais que privilegiavam o modelo teórico hegemônico, que parte do ponto de vista do homem homossexual branco, de classe média, mais interessado em ser totalmente incluído na sociedade como "normal".

"Queer", em inglês, significa "estranho" ou "excêntrico". O uso dessa palavra como xingamento direcionado a homossexuais foi registrado pela primeira vez em 1922, passando a ter o objetivo principalmente de rebaixar homens gays com trejeitos afeminados ou mulheres lésbicas com trejeitos masculinizados.

Em junho de 1990, um grupo que se denominava "Queer Nation" (Nação Queer), distribuiu panfletos na Parada do Orgulho Gay (à época, ainda não se usava a sigla LGBT [VIDEO]) de Nova York em que defendia que a melhor forma de resistência contra a violência homofóbica era sair do armário e se tornar visível, para que "queers" pudessem se identificar e se ajudar.

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O Queer Nation e os grupos por ele inspirados acreditavam que a confrontação e a desobediência civil deveriam compor o ativismo, pois só assim se conseguiria resultados reais.

A escolha da palavra era uma estratégia de reapropriação: se eu me assumo como "queer", o outro não pode mais usar esse termo como xingamento, porque ele não mais me atinge. Um exemplo dessa mesma estratégia, aqui no Brasil, pode ser visto entre LGBTs que adotam "bicha", "viado" e "sapatão" para referirem a si mesmos, de forma irônica, a fim de reduzir o peso negativo de tais palavras. As obras da série "Criança Viada", da Bia Leite, vêm justamente com esse objetivo.

A expressão "criança viada" vem de um Tumblr que reúne fotografias enviadas pelas próprias pessoas LGBT de quando eram crianças. O jeito afeminado do garoto ou masculinizado da menina são alvo de bullying desde muito cedo e todas as crianças diferentes passam por isso. Assim, ao se mostrarem como "viadas" ou "sapatonas", elas brincam com esses xingamentos que enfrentaram desde a infância e aliviam o peso do bullying que elas mesmas sofreram.

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Hoje, o uso de "queer" se mostra bem amplo, podendo se referir até mesmo a práticas heterossexuais que não são consideradas normais pela sociedade, como o sadomasoquismo ou o poliamor, ou a indivíduos que, de alguma forma, são vistos como "estranhos", como deficientes físicos, anões e, por que não, pessoas quem sentem atração física especificamente por quem tenha essas características.

É importante que a gente tenha em mente que "queer" não é uma identidade, mas um posicionamento a partir do qual é possível questionar certezas e regras que têm aparência de serem "naturais" e "fixas", mas que na verdade foram sendo cuidadosamente impostas e naturalizadas ao longo do tempo. Outra coisa é que não existe uma definição única e fechada para o conceito de "queer", porque parte de sua eficácia está justamente no incômodo que uma falta de definição provoca.

Dessa forma, "queer" é um jeito de chamar atenção para aquilo que leva ao estranhamento, ao desconforto, à incerteza, ao questionamento, à confusão, não sendo necessariamente algo bom ou ruim. Aliás, essas dicotomias de bom/ruim, certo/errado, positivo/negativo, bem como masculino/feminino, são também questionadas pelo "queer". Daí a escolha do título "QueerMuseu" para uma exposição que pretende provocar ativamente e ser polêmica, afinal de contas, a arte não tem que necessariamente ser bela e sublime.

Obviamente, um termo tão impreciso e aberto leva a críticas, inclusive por parte do movimento LGBT. Na parte 2, pretendo explicar um pouco mais dos motivos de ele ser tão controverso e alvo de problematizações entre muitos ativistas.