A exposição "QueerMuseu: Cartografias da diferença na #Arte brasileira", de curadoria de Gaudêncio Fidélis, que estava em cartaz desde o dia 14 de agosto no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada prematuramente em função de protestos iniciados pelo Movimento Brasil Livre, que levaram a centenas de ataques ao banco e à mostra por meio das redes sociais.

Fidélis, que atuou como curador-chefe da 10ª Bienal do Mercosul, em 2015, fez seu mestrado em Arte pela New York University (NYU) e doutorado em História da Arte pela Universidade do Estado de Nova York (SUNY), foi o responsável pela exposição. Dentre as obras selecionadas para a "QueerMuseu" estavam trabalhos de artistas consagrados, como Lygia Clark, Volpi, Portinari, Flávio de Carvalho, além de fotografias de Allair Gomes e mais 80 nomes, num total de 264 obras de arte contemporânea.

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A proposta dessa exibição, segundo o próprio Fidélis, é a de promover reflexões e debates acerca das questões de gênero e diferença, abrindo discussões sobre a formação do cânone artístico - majoritariamente formado por homens brancos, como a maioria dos escolhidos para a mostra - e do que seria a diversidade. O uso da palavra "#Queer", embora seja associado de forma extremamente simplificada ao meio LGBT [VIDEO], diz respeito a essa diferença, que pode estar presente inclusive na heterossexualidade. "Queer" representa uma forma de questionar as normas e o que nos é imposto como "normal" ou "natural" e, muitas vezes, usa de estratégias para causar choque, incômodo e estranhamento.

Infelizmente, por conta desse caráter "perturbador", o "queer" tem sido erroneamente colocado como movimento de defesa de práticas como a pedofilia e a zoofilia, inclusive por grupos feministas e vertentes mais conservadoras da comunidade #LGBT.

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Trata-se de uma distorção típica que resulta da falta de compreensão acerca da chamada Teoria Queer.

O Movimento Brasil Livre (MBL), que tem se destacado na política brasileira por seu apoio a políticos conservadores e de direita, muitos deles envolvidos em corrupção, rapidamente se empenhou em atacar a "QueerMuseu", alardeando para um suposto incentivo à pedofilia e à zoofilia, em nome da moral e dos bons costumes. Na última semana, segundo relatam pessoas que estiveram na exposição, apoiadores do MBL chegaram a agredir verbalmente quem visitava a galeria, gritando impropérios e acusando pessoas de serem "pedófilas", "taradas", entre outras coisas piores.

Três obras escolhidas como "bodes expiatórios" dos conservadores são uma pintura de Jesus, por Fernando Baril, com vários braços e oferendas, em alusão ao consumo e à mídia como líderes religiosos; colagens que se referem ao meme "Criança viada", uma brincadeira lançada na internet com o objetivo de subverter precisamente a homofobia que crianças com comportamento afeminado sofrem na infância; e uma pintura que mostra múltiplos atos sexuais, um dos quais consiste de um jovem que segura um animal enquanto o outro o está penetrando, prática que, no passado, principalmente em áreas rurais, era vista como natural entre meninos que estavam descobrindo a sexualidade - vista em contexto, uma vez que os outros atos sexuais da tela mostram figuras negras que parecem macacos, a pintura é uma denúncia do ato de dominação e colonização que coloca pessoas negras e indígenas como selvagens e objetos de mero "alívio sexual", da mesma forma que animais.

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A falta de senso crítico fez com que seguidores do MBL pressionassem o Santander a ponto de a instituição anunciar o cancelamento da mostra um mês antes do previsto, decisão sobre a qual Fidélis relata não ter sido consultado. Em resposta ao ato de censura foi marcada uma manifestação, pela liberdade de expressão artística e contra a LGBTTfobia, para esta terça-feira, 12, na rua 7 de Setembro, no Centro Histórico de Porto Alegre, às 15h30.