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Talvez haja a impressão, no público em geral, de que os grandes escritores são seres dotados de um talento instantaneamente reconhecido pelas editoras, ou que os profissionais da área têm um faro muito apurado, devido à larga experiência no meio e pelos milhares de páginas consumidas, que não deixa passar batido o emergir de um novo ícone da #Literatura.

Pura ilusão.

Os editores precisam lidar diariamente com a empreitada de encontrar uma obra que atenda a critérios subjetivos de qualidade/ inovação e critérios tangíveis de viabilidade comercial. Como não se trata de uma ciência exata, é bem comum que haja uma interpretação equivocada a respeito de uma dessas necessidades e que isso influencie decisões que se revelem absurdas anos mais tarde.

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Já os escritores, que normalmente são mais experts em escrita do que em propaganda, têm que aprender como fazer uma comunicação persuasória certeira para conquistar a tão sonhada primeira chance ou, quando se trata de seu brilhantismo estar muito à frente de seu tempo, sintetizar em linguagem digerível o vanguardismo que dominam. Desafio que pode levar anos para ser superado, acompanhado de contínuas rejeições.

Abaixo seguem alguns casos famosos:

George Orwell

O mundialmente aclamado escritor de obras máximas como ‘1984’ e ‘A Revolução dos Bichos’, George Orwell, teve que engolir várias negativas para publicar a última obra citada em editora reconhecida.

Um dos que cometeram esse sacrilégio foi o prestigiado e “nobelado” poeta T.S. Eliot, na época, editor, argumentando que a obra “não era convincente”.

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O receio de alguns editores, que influenciou a recusa do clássico, era o caráter crítico da obra em relação à União Soviética que, naquele período, era aliada dos britânicos na luta de vida ou morte contra o nazismo.

Para finalizar, segue a justificativa de um editor sobre o porquê de esnobar esse grande sucesso:

“É impossível vender histórias sobre animais nos Estados Unidos”.

Stephen King

O ‘pai do horror’ e criador de grandes sucessos como ‘À Espera de um Milagre’, ‘O Iluminado’ e It – A Coisa [VIDEO]’, Stephen King, amargou diversas recusas e uma vida financeira delicada antes de ter o seu primeiro trabalho publicado.

As recusas foram tantas que o fenômeno da literatura desanimou a ponto de deixar inacabado o manuscrito de ‘Carrie, a estranha’ e jogá-lo fora.

Porém, sua esposa, Tabitha, acreditou em seu potencial e o convenceu a retomar o trabalho. Quando finalmente uma editora se dispôs a investir no seu talento, teve que informá-lo por meio de telegrama, já que morava em um trailer e não tinha condições de sequer bancar uma linha telefônica.

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Há quem diga que ouviu uma vez de um avaliador o seguinte:

“Não estamos interessados em ficção científica que trata de utopias negativas. Eles não vendem.”

Estima-se que King já tenha vendido quase 400 milhões de cópias.

Marcel Proust

Veja esse comentário de Fábio de Souza Andrade, professor e autor de ‘Samuel Beckett: O Silêncio Possível’ (Ateliê Editorial), sobre o reverenciado escritor francês autor da célebre obra ‘Em Busca do Tempo Perdido’:

"Mais do que o devassador, microscópico e telescópico, do 'grand monde' francês da belle époque, Proust foi, ao lado de Joyce, responsável pela instalação do romance moderno em seu domínio próprio, pantanoso e movediço: o da consciência. A desconfiança do realismo epidérmico; a obsessão em reconsiderar a experiência do mundo através do filtro estético, livre das amarras da percepção habitual; a rejeição da memória voluntária, com vocação de arquivo morto; a percepção essencial da identidade como uma sucessão de eus; a agudeza ao anotar os descompassos do desejo – tudo isso faz do narrador de 'Em Busca do Tempo Perdido', às voltas com um monstro 'janusiano, triádico e ágil', uma Divindade em que Tempo, Hábito e Memória se combatem e se combinam (a imagem é de Beckett, leitor e entusiasta de primeira hora), marco maior na investigação dos labirintos do sujeito na modernidade."

Em 1912, André Gide trabalhava na Nouvelle Revue Française (NRF) quando teve em mão o original do recluso escritor. A sua reação foi a de instantânea repulsa ao saber da autoria do manuscrito, nem se dando ao trabalho de lê-lo, pois considerava Proust como uma espécie de dândi, um charlatão incapaz de escrever uma obra séria.

“Um dos remorsos mais cruéis de minha vida”, confessou Gide anos depois.

J. K. Rowling

Ok. Dispensa apresentação: ‘Harry Potter’, filmes, 450 milhões de cópias vendidas (números até 2016), traduzido em 73 línguas, fenômeno cultural...

E é provável que se saiba que o primeiro título da série do bruxo de Hogwarts recebeu diversas recusas.

Porém o fato voltou a acontecer com a autora mesmo depois de imortalizar a saga na #Cultura pop.

Usando o pseudônimo de Robert Galbraith, Rowling enviou o original do romance policial ‘The Cuckoo’s Calling’, aqui no Brasil publicado como ‘O Chamado do Cuco’ (Rocco), a várias editoras. Foi recusada em quase todas e recebeu algumas orientações um tanto inusitadas como a de fazer “um curso de escrita”.

Outro detalhe curioso, segundo a Best Seller, foi a resposta mais dura que obteve de uma editora que havia recusado publicar ‘Harry Potter’ antes do estrondoso sucesso.

Algumas das cartas foram divulgadas pela escritora na sua conta do Twitter em 2016, com os nomes dos editores apagados sob a justificativa de que as publicou para inspirar as pessoas e “não para procurar vingança”.

Middleton e Naipaul

O jornal britânico Sunday Times, em 2006, resolveu fazer um teste e uma pegadinha com editoras e agentes literários para verificar como avaliavam os originais de autores estreantes.

No entanto, em vez de mandar para análise um trabalho de uma figura anônima, decidiram enviar os capítulos iniciais de escritores prestigiados que haviam vencido o tradicional Book Prize, reverência no mundo literário na terra da rainha nos anos 1970.

Eram eles: Stanley Middleton e o ganhador do Nobel V. S. Naipaul.

Já sabe o que aconteceu, não é?

Apenas uma, das 21 respostas, foi favorável. #Livros