Em artigo recentemente publicado pela revista "Nature", Edward Barbier, professor de economia da Universidade de Wyoming (EUA), faz uma abordagem crítica dos critérios para estimar a riqueza de um país e sua evolução. Para nós, brasileiros, essa abordagem é ainda mais do que oportuna, considerando as recentes notícias sobre a evolução do desmatamento na Amazônia. Os critérios atualmente adotados são os preconizados pelas Nações Unidas e incluem recursos naturais como combustíveis fósseis, minerais e florestas para calcular o capital de um país. Mas quando se trata de fazer o ajuste dessa medida e sua evolução levando em conta a depreciação do capital, apenas o "capital fixo" é considerado - edificações, equipamentos etc., quando na realidade a depreciação do capital natural também deveria ser contabilizada.

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Trata-se de contabilizar a perda líquida desses recursos naturais em termos de materiais e energia injetados na economia, já que, ao se usar hoje mais desses recursos para produzir riqueza, sobrará menos deles para produzir amanhã.

O mesmo raciocínio se aplica aos ecossistemas, importante capital ecológico, provedor de bens e serviços para a economia, cuja depreciação decorrente da degradação descontrolada também não está sendo contabilizada.

Os indicadores econômicos são drasticamente alterados quando se contabiliza a depreciação do capital natural, especialmente para os países em desenvolvimento, geralmente ricos em recursos naturais e ecossistemas.

Contabilidade criativa

Desde 1970, o Banco Mundial de Desenvolvimento tem publicado estimativas, para a maioria dos países, do ajuste do produto interno considerando a depreciação do capital natural.

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Duas tendências notáveis são observadas ao longo das últimas 4 décadas: (1) o declínio do capital natural tem sido cinco vezes maior, em média, nos países em desenvolvimento em relação aos oito países mais ricos; (2) a depreciação do capital natural tem aumentado significativamente em todos os países desde 1990.

O capital ecológico também claramente corre perigo sob os padrões atuais de desenvolvimento. A Millenium Ecosystem Assessment estima que aproximadamente 60% dos maiores ecossistemas globais tenham sido degradados ou utilizados de forma não sustentável. Um exemplo disso são os manguezais da Tailândia: embora a perda desses manguezais tenha caído sistematicamente a cada década desde 1970, ainda assim a perda acumulada é estimada em cerca de 1/3, devido principalmente à expansão das fazendas de camarão e outras atividades costeiras.

Uma das maiores dificuldades para contabilizar a depreciação do capital ecológico é a valoração dos benefícios dos diversos ecossistemas. As Nações Unidas e o Banco Mundial têm desenvolvido estudos-piloto, abrangendo número crescente de países e ecossistemas, para construir critérios para o ajuste do cálculo do produto interno e riqueza do país que inclua variações do seu capital ecológico.

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Até que se estabeleça uma abordagem sistemática, adotada por todos os países, para contabilizar as perdas de capital natural e capital ecológico, como já é feito com a depreciação do capital fixo, os países de baixa e média renda estarão simplesmente emulando os ricos de acordo com os critérios vigentes de apuração de riqueza. Na prática, segundo o autor, isto acaba por se traduzir num simples intercâmbio de capital - da riqueza da terra para a riqueza do homem. Sem a solução desse impasse, continuaremos a ter uma falsa impressão de progresso e crescimento econômico. #Natureza