Há diversos fatores envolvidos no alto e desnecessário índice de cesarianas eletivas em nosso país, mas o fator econômico é, sem dúvida, um dos mais esquecidos. O jornal A Folha publicou recentemente um artigo sobre algumas das razões pelas quais o modelo obstétrico brasileiro evoluiu de forma diferente do modelo de muitos países desenvolvidos.

Um desses motivos está relacionado com uma decisão que a Agência Nacional de Saúde tomou ainda nos anos 70. Até essa época, ao que parece, ainda seguíamos a mesma linha de raciocínio dos melhores sistemas obstétricos. Gravidez não era doença e portanto, não precisa de tratamentos, hospital e médicos.

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Havia as parteiras tradicionais e as enfermeiras qualificadas.

Mas quando a Agência Nacional de Saúde determinou que os médicos tivessem que marcar presença na sala de parto para poder receber, o processo de denegrimento do parto normal, que dura até hoje, tomou rumos alarmantes. As enfermeiras perderam espaço para os obstetras, que passaram a fazer o possível para apressar os nascimentos.

Alia-se a esta medida a falta de fiscalização dos planos de saúde, que gerou valores muito semelhantes a se pagar por cesáreas e partos normais, e temos o desestímulo ao método natural.

Sejam quais forem as razões atuais para justificar os 50% de cesáreas na rede pública de saúde, o governo tem a obrigação de oferecer à população tratamento digno. Mas não é viável fazê-lo com profissionais despreparados para atender às complicações de um parto normal, como pré-eclâmpsia, que necessita de indução (e não de cesárea); bebê sentado, que necessita de manobra de versão ou de sair via parto pélvico (mas não de cesárea); entre outros.

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Se as cesáreas desnecessárias continuarem, corre-se o risco de acontecer o mesmo que no sistema de saúde britânico. Recentemente, dois casos chamaram a atenção da mídia. Na mesma semana em que uma menina de dez anos teve um tratamento clínico que poderia salvar a sua vida negado por falta de recursos do sistema de saúde, um rapaz de 18 anos teve a sua cirurgia de mudança de sexo aprovada pelo mesmo sistema.

Isso é o que pode acontecer quando se usam os recursos públicos de maneira ineficaz. Não se discute a necessidade de uma cirurgia como a de mudança de sexo, mas a sua prioridade. Certamente o rapaz de 18 anos poderia esperar alguns anos para ter a sua cirurgia, pois é o seu direito, mas o seu adiamento não representaria um risco para a sua vida, como no caso da menina de dez anos.

Por outro lado, o modelo obstétrico do sistema de saúde público britânico é referência no mundo e não há escassez de recursos extrema como em outros setores. Isso porque, ao promover o parto normal em gestações de baixo risco, o NHS economiza milhões de libras, que são redirecionadas às emergências reais.

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Quando uma parte significativa das mães têm um filho em casa, acompanhada apenas de uma pequena equipe de parteiras, ela está liberando leitos de hospital, obstetras cirurgiões, anestesistas, medicamentos e equipamentos que salvarão a vida de outras mães e bebês.

O parto normal deve ser estimulado sempre porque, além de ser mais saudável para mãe e bebê, ele também significa uma economia enorme para os cofres públicos. É preciso deixar as cesáreas para quem realmente precisa delas, ou vamos continuar a correr o risco de ter uma cesariana necessária negada por falta de recursos. #Finança