A retração do mercado brasileiro de automóveis custou o emprego de quase 15 mil trabalhadores nos últimos 12 meses - cerca de 3.600 deles foram demitidos só no primeiro trimestre deste ano. Mas enquanto as vendas caem, os preços dos zero-quilômetros seguem subindo. De acordo com dados do Datafolha, o reajuste médio já passa de 4%, em 2015, mostrando que as montadoras não estão dispostas a cortar na própria carne. Pelo contrário, os fabricantes nacionais mantém margens de lucro que são três vezes maiores do que as praticadas nos Estados Unidos, Europa e Japão. Isso sem falar na participação dos concessionários, que chegam a embolsar mais de 20% do preço final dos veículos.

Invariavelmente, a culpa recai no chamado "custo Brasil", nos impostos.

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"A retração deste ano é superior à que esperávamos e atribuímos essa queda ao fato de as medidas de ajuste fiscal não terem sido aprovadas", disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan. "Isso minou a confiança dos investidores e, principalmente, do consumidor".

Mas antes de o leitor puxar a fila da coragem e quebrar o cofrinho para comprar um Honda Fit, por exemplo, é bom ter em mente que a carga tributária do compacto nacional não chega a 26%, contra quase 20%, na França. A diferença é que, lá, onde o Fit leva o nome de Jazz, seu valor (a partir de o equivalente a R$ 48.815) corresponde a 90% do que é cobrado por aqui.

Achou a diferença pequena?

E se levarmos em conta que o salário mínimo, na França, equivale a R$ 4.295, contra nossos minguados R$ 788?!

Somados, fabricantes e distribuidores embolsam mais de 30% do valor que os brasileiros pagam por um zero-quilômetro, parte maior do que a que o tão malfalado leão abocanha.

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Apenas para o leitor ter uma ideia, se as montadoras instaladas no Brasil repetissem, aqui, a mesma estratégia que põe em prática na Europa, o Fit EX que parte de R$ 54.200 custaria justíssimos R$ 38 mil. Isso, ninguém fala...

O presidente da Anfevea diz que "a última coisa que as montadoras gostariam de fazer é reduzir o nível de emprego", mas na prática as demissões seguem em pauta. Há dez dias, a Mercedes-Benz demitiu 500 dos 750 trabalhadores da fábrica de São Bernardo do Campo, que já estavam afastados. Mas mesmo com as vendas em queda e o #Desemprego em alta, ainda há quem ache que esta é a hora de comprar um zero-quilômetro, antes do próximo aumento.

"Na prática, as marcas sobem os preços para recompor suas margens de lucro", declarou Raphael Galante, da Oikonomia Consultoria Automotiva, para o "Valor Online". O site mostrou que, no ano passado, enquanto as vendas dos fabricantes nacionais caiam mais de 7%, seu faturamento - em bilhões de reais - tinha perdas mínimas, de 3%. É o paradoxo que nenhum economista consegue explicar... #Negócios #Automobilismo