Desde que o britânico Alfred Marshall publicou “Princípios de Economia”, em 1890, a lei da oferta e da procura foi adotada universalmente para detalhar como os mercados autorregulam preços de bens e serviços, com base no comportamento dos consumidores. Um gráfico elaborado por Marshall, há 125 anos, mostra que quando a oferta de um produto excede sua procura, seus valores caem e quando o contrário acontece, seus preços sobem. Funciona assim nos Estados Unidos, no Canadá, na Europa, Japão e na imensa maioria dos países. O Brasil é uma exceção à regra e nosso setor automotivo vai na contramão de um dos mais influentes economistas da história, aumentando preços sistematicamente, mesmo com a projeção de queda de 25%, para este ano – em 2014, a retração foi de 7,1%.

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Só nesta semana, a Fiat aumentou os preços do pequenino 500 – que não recebeu, por aqui, o facelift implementado na Europa – em até R$ 17.140, a Hyundai elevou o valor de entrada do i30 de R$ 78 mil para R$ 86 mil na versão 2016, que também fica para trás do modelo europeu e ganha apenas um tapinha no visual, e a BMW reajustou a tabela do X3 em até R$ 7.500 – isso, acredite, depois de nacionalizar o utilitário-esportivo (SUV).

No caso do Cinquecento, a versão de entrada Cult 1.4 Flex – que chegou a ser vendida por R$ 40 mil, quando passou a ser importada do México, em setembro de 2011 – passa a R$ 56.900, alta de quase 17% sem aumento de conteúdo. Mas é a nota do vice-presidente sênior da BMW, Gerald Degen, responsável pela fábrica brasileira de Araquari (SC), que dá o tom da indústria: “Estamos cada vez mais preparados para atender às necessidades dos exigentes consumidores do país”, diz o comunicado que põe um nariz de palhaço na cara de cada cliente da marca.

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Afinal, se fossem “exigentes”, os “consumidores deste país” indagariam o porquê do aumento, mesmo com a nacionalização do produto.

Mas como “somos todos macacos” – não foi isso que nove de cada dez brasileiros bradou após o episódio de racismo com o jogador Daniel Alves? – ninguém vai, sequer, boicotar essas e outras marcas, como a Volkswagen, que já havia aumentado o preço básico do Fox de R$ 35.900 para R$ 43 mil, em menos de 12 meses. Outro escândalo, o Volvo V40 sofreu um reajuste de mais de 14% só nos primeiros seis meses deste ano, segundo a Molicar.

Nesta semana, a General Motors demitiu 200 trabalhadores em São José dos Campos (SP), enquanto a Mercedes-Benz anunciou um grande corte para o início do mês que vem. “Só esperamos uma retomada sustentável para os volumes do setor automotivo a partir de junho de 2016”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, durante a apresentação dos números consolidados de julho. “Ainda temos um potencial muito grande, no mercado interno. Estamos passando um momento difícil, mas os investimentos anunciados pela indústria reforçam nossa crença no país”.

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Moan só não explica um paradoxo: os fabricantes que anunciaram quase R$ 100 bilhões em investimentos, até 2017, o fazem pela perspectiva de amortizarem esse montante, em médio prazo, e ainda lucrarem muito mais do que isso, em longo prazo. Mas na hora de manterem os preços dos seus veículos as montadoras dizem que estão operando, no país, sem margem de lucro. Como assim?!

Realmente, nós devemos ser macacos. #Automobilismo #Crise econômica #Blasting News Brasil