Dando uma olhada na lista dos “100 Top Values” da revista norte-americana “Wine Spectator”, fica claro que o vinho voltou a ser artigo de luxo, no Brasil. Depois de experimentar um período de popularização, nos últimos 15 anos, os preços foram às alturas, a qualidade caiu vertiginosamente, e, hoje, só mesmo quem tem muito dinheiro vem “investindo” neste produto. A moda foi passageira e, até mesmo as postagens de rótulos nas redes sociais, mostrando o dono ou a dona do perfil se deliciando com a mais nobre das bebidas, minguaram – pior, deram lugar a análises políticas.

A escalada dos preços afastou o consumidor e está claro nos números do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

Publicidade
Publicidade

Eles mostram a interrupção de um período de crescimento, que vinha desde 2006, com uma queda vertiginosa de 30% só no primeiro bimestre deste ano. Em 2015, o setor ficou estável (as vendas até cresceram míseros 0,9%), mas o valor importado caiu 10% - o que, na prática, representa uma piora dos rótulos trazidos para o país – e a participação de Argentina, Itália, França e Portugal caiu para os mesmos percentuais de dez anos atrás.

Para confirmar que o vinho voltou a ser artigo de luxo, basta comparar os preços dos “100 Top Values”, que são as barganhas das enotecas norte-americanas, com os valores praticados pelos importadores brasileiros para os mesmos rótulos. Começando pelo Cabernet Sauvignon Maipo Valley Alto Gran Reserva 2012, da Viña Carmen, que lá custa US$ 15 – o equivalente a R$ 55 – e é descrito como um vinho de cor “bem-temperada, com notas de ameixa, alcaçuz e alcatrão, apoiadas por boa acidez”.

Publicidade

Aqui, a Mistral vende a mesma linha, da mesma safra, só que do varietal Carménère por extorsivos R$ 147 – o valor é promocional, já que seu preço “de tabela” é de astronômicos R$ 161. O mesmíssimo ocorre com o Carménère Rapel Valley Reserva de Familia 2011, da Santa Carolina. Na terra do Tio Sam, ele custa US$ 20 – o equivalente a R$ 73. Já por aqui, não sai por menos de R$ 110.

As diferenças seriam compreensíveis se houvesse uma equivalência salarial entre o trabalhador brasileiro e o norte-americano, caso em que a “culpa” poderia ser atribuída única e exclusivamente à carga tributária nacional – mas não é este o caso. A conta é simples: enquanto, nos EUA, a renda mínima mensal é de US$ 1.250 – o equivalente a R$ 4.550 – aqui, o salário mínimo é de R$ 880 – o equivalente a US$ 241,50.

Como o leitor pode ver, se um trabalhador norte-americano ganhasse o equivalente a um salário mínimo brasileiro ele não conseguiria comprar mais do que dez garrafas de vinho por mês - aqui, o coitado não está conseguindo comprar nem oito.

Publicidade

Mas existem exceções que têm, obrigatoriamente, de ser citadas. O Douro Porca de Murça Red, da Real Companhia Velha, é um dos raros exemplos em que há uma sinergia de preços, entre Estados Unidos e Brasil – talvez pelo fato de os vinhos portugueses não terem o devido prestígio por aqui, onde o chileno é destaque nas prateleiras e consumida nas mesas como se fosse Crus Classés. Lá, ele custa US$ 10, equivalente a R$ 36,50, que é valor médio cobrado no mercado nacional. Mais do que uma exceção, ele mostra uma grande margem de lucro na composição de preços dos importadores, para além dos impostos, que está matando o setor. #Crise #Comportamento #Inflação