A escola mais antiga do país localiza-se em Recife (foi fundada em 1825) e continua em funcionamento. O Ginásio Pernambucano lançou nomes proeminentes da intelectualidade brasileira como Celso Furtado, Ariano Suassuna e José Lins do Rego. Porém, existe um diferencial do qual o Ginásio foi objeto. É que a partir de 2004, ela serviu de projeto piloto para o Centro de Ensino Experimental, concebido por empresários de uma multinacional holandesa, de uma indústria do ramo de tintas, do Eurobank e da Chesf. Eles também criaram o Instituto de Corresponsabilidade pela #Educação (ICE).

Após uma reforma estrutural do Ginásio, os 2200 alunos e mais o corpo docente foram transferidos para outras unidades de ensino. Abriram-se somente 300 vagas e 26 professores foram contratados com jornada de 8 horas e salário três vezes maior com participação nos resultados. Direitos que não foram estendidos ao pessoal administrativo das instituições de ensino. Essa verba quem pagou foi o estado pernambucano. No entanto, o projeto não foi alvo de discussão pública. Implementou-se do “dia para a noite” numa ação surpreendente.

Com o sucesso precoce das escolas experimentais, o ICE resolveu ampliar a fórmula para mais 13 unidades e isso alertou o movimento estudantil. Algumas escolas tinham situações que beiravam ao surrealismo como o uso de uniformes diferentes; bem como a merenda, feita por unidades gestoras diferentes dentro da mesma escola. A infraestrutura continua precária na maioria das escolas: sem refeitório e nem laboratório.

“De positivo, não sobrou nada. O aluno não sai preparado para a vida, para o exercício da cidadania nem para o mundo do trabalho. A lógica da aprovação automática tende a se aprofundar com as Organizações Sociais, que vão em busca de bônus e resultados quantitativos”, diz o professor Heleno Araújo, membro do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco.

Com a expansão do modelo de Pernambuco, correm boatos de que o governo de São Paulo tentaria algo semelhante nas escolas paulistas. Mas, o ritmo de implantação é acelerado nos estados do Pará e Goiás.

Segundo seus governadores, a intenção é transferir toda a gestão de ensino para as Organizações Sociais. De certa forma, eles se valem de um artifício encontrado no Plano Nacional de Educação dentro meta de número 20, que trata do financiamento educacional. Pode-se utilizar 10% do PIB para ajudar no custeio das parcerias, o que incluiria as Organizações Sociais.

No Pará, o projeto é colocado avança e a primeira consequência imediata é a formação de classes com 50 a 52 alunos. Muitas classes são colocadas para assistirem a videoaulas. Professores de inglês estão perdendo o emprego com a adoção de cursos prontos.

Em Goiás, a lógica seguida pelo governo é de que a produtividade das Organizações Sociais “rende mais pelo fato de serem substituídos por profissionais no mercado caso não correspondam às expectativas da sociedade". Houve publicação de edital para interessados, mas não apareceu nenhum.Detalhe: o último concurso para professores aconteceu há 6 anos. Para o pessoal administrativo, não se contrata há 15 anos.

O modelo apregoado pelo ICE está alcançando outras regiões do Brasil com interesses do Ceará, Piauí e de Sergipe, da cidade do Rio de Janeiro e há uma proposta tramitando na Assembléia Legislativa do Espírito Santo, onde a população está resistindo. Esse modelo, de acordo com profissionais da educação não é o melhor, pois, o estado repassa os recursos e a entidade se compromete a alcançar as metas. Caso consiga, a concessão se estende. Se não conseguir, a gestão é repassada para outra organização ou é devolvida para o governo.

Se o objetivo é transformar o ensino fundamental em negócio, buscando o compartilhamento da iniciativa privada com o setor público, é um primeiro passo. Os principais pontos de interrogação persistem quanto a vários erros já detectados e se os governantes estão atentos a isso. E quanto aos impactos na constituição intelectual dos estudantes.  #Tendências