"Driblar é dar aos pés astúcias de mãos"

João Cabral de Melo Neto

Os estudiosos de literatura brasileira são unânimes: Rubem Braga bate um bolão. Descortina fragmentos de um cotidiano insosso com dribles do mais legítimo futebol-arte. Lirismo e técnica se envolvem num jogo aparentemente simples que, aos poucos, se transforma em espetáculo. E o leitor, correndo de lá para cá, vai apitando a partida. A bola da vez geralmente é a mulher, um passarinho, a pescaria, a solidão e futebol. A editora Ática está lançando O mundo é uma bola, com 29 crônicas de Rubem Braga e outros doze autores.

Pelo que foi publicado até hoje, poderíamos supor que o cronista não se dedicou tanto ao tema como Nelson Rodrigues, Drummond, Paulo Mendes Campos ou Stanislaw Ponte Preta.

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Nenhum dos seus livros publicados enfocou o assunto como tema principal. Entretanto, o futebol pode ter sido abordado nas outras 13 mil crônicas, que dormem em arquivos de jornais e revistas de vários estados. Seria mais prudente, portanto, crer que essa paixão nacional não deixou de arrebatar o cronista atento, torcedor apaixonado. Rubem Braga era Flamengo. E é com uma carteira de jogador rubro-negro, emprestada, que o cronista escapa da polícia de Getúlio Vargas e da cadeia. Novamente foi salvo pelo futebol, no jogo em que o Brasil perde para a Itália a vaga para as semifinais da Copa do Mundo, em 38: aproveita o choro convulsivo, decepcionado, do detetive que deveria interrogá-lo, serve-lhe um copo d'água com açúcar e sai calmamente, sem ser incomodado.

É fácil imaginar a cobertura do cronista em Ipanema, palco efervescente das rodas culturais cariocas, em dia de estréia do Brasil na Copa do Mundo.

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A porta aberta, a rede vermelha no jardim suspenso, uísque e cigarro regando a conversa frouxa dos amigos: Otto Lara, Vinícius, Sabino, Caymmi, Oswald de Andrade, Joel Silveira, Graciliano, Drummond, João Cabral, Clarice Lispector, Tônia Carrero - e outras mulheres, de preferência, lindas. Mas não era sempre assim. Às vezes, prefere ficar só, "arruma a casa como um noivo trêmulo e confiante" e dá ordens inúteis ao técnico e aos jogadores, como em 58, no embate entre Brasil e Suécia.

Uma das ocasiões em que resolve assistir ao jogo do Brasil acompanhado está registrada em foto, guardada por seu biógrafo, o jornalista Marco Antonio de Carvalho. Um Rubem Braga magro, casmurro, tenso, está sentado ao lado de amigos que gesticulam e torcem, vestidos de um sentimento verde e amarelo. O amor do cronista pelo futebol é do tempo em que se escrevia "goal" e se chamava meio campista de "center-half". Não é só em prosa que o cronista defende seu time. No seu único livro de poesias (Livro de Versos), arriscou unir grandes paixões: mulher e futebol: "Nós todos envergando essas cores sagradas/ no coração dentro do peito cada um tem uma namorada na bancada" (Retrato do Time).

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Em versos, continuava fazendo boa crônica.

Nunca chegou a ser bom jogador, mas era comum reunir intelectuais e boêmios, em peladas de fim de semana, onde "sobra entusiasmo e faltam técnica e fôlego", como relata Marco Antonio de Carvalho em Nem Deus, nem Marx: a crônica de Rubem Braga - biografia ainda a ser lançada. Certa vez, o poeta Frederico Schmidt, "gordo e suarento", cai logo no pontapé inicial e pára a partida, em meio às gargalhadas. Vinícius costumava inventar contusões, para assistir ao jogo ao lado das mulheres. E Braga, "zagueiro enérgico, deu uma traulitada no único bom jogador ali atuando, um médico, o que deixou a todos encabulados, " diz a biografia.

Essa fúria futebolística talvez seja fruto de um trauma de infância, relatado nas crônicas Os Teixeiras moram em frente, As Teixeiras e o futebol e A vingança de uma Teixeira (Casa dos Braga - Memória de Infância). As irmãs Martins (que ele chamou de "Teixeiras") moravam em frente da sua casa, em Cachoeiro, e detestavam aquele bando de moleques barulhentos. A troca da bola de meia pela de borracha engrossou o caldo e acabou com os acordos de paz entre a criançada e as vizinhas: um chute certeiro estilhaçou a vidraça de uma janela. Indignada, uma das irmãs estraçalha a bola com canivete. É então que "Rubinho" planeja o assalto à casa dos Teixeira e, com os colegas, dá fim a um anel, que é relíquia de família. Mas ficou sem a brincadeira que mais gostava. Hoje, a história literária brasileira - e nós leitores - só temos a agradecer à irmã Teixeira: Rubem Braga é o craque da crônica, onde marcou gols de fazer inveja a Pelé.