Sou louca por futebol, exageradamente louca. De onde vem isso? Nem sei... Meu pai não era fanático; minha mãe torcia o nariz e meus irmãos sempre foram os piores de bola da turma de garotos.

Mas eu nasci em ano que ganhamos a Copa (58) e vi, com muita paixão, a primeira Copa que entendi, em 70. Setenta milhões em ação, prá frente Brasil. Custei saber tudo que aquele período ocultava, mas na faculdade veio à tona a toda a enganação. Mesmo consciente, em se falando no esporte, pra mim só valiam os dribles geniais e aquela emoção enlouquecida que envolveu a todos.

Vi muito futebol verdadeiro. Muita garra. Apaixonei!

Uma vez, num golpe de sorte, estava em São Paulo e ia pegar a ponte para o Rio quando percebi que tinha esquecido uma sacola de compras no centro de São Paulo.

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O que fazer? Teria que voltar lá, não tinha outra saída. Com o check- in feito, convesei com as atendentes e fui atrás do que tinha esquecido. Os tempos eram outros e não havia grandes complicações nas coisas.

Quando voltei ao aeroporto de Cogonhas me embarcaram num vôo pouco convencional. Por que? A movimentação no interior da aeronave estava diferente, as aeromoças levavam pilhas de jornais para alguns passageiros e pediam que escrevessem algo. Eu não estava muito interessada no entorno, tinha comprado um livro revolucionário de desenhos que tinha acabado de sair. Nele a gente enfiava os olhos até ver outras imagens além das óbvias que apareciam. Uma formação de terceira dimensão, sei lá, um pouco holográfico. E estava tão interessada no que via, que não percebi quem estava ao meu lado : o Bebeto.

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Aliás, depois desse primeiro susto - fiquei sem palavras - vi que estavam todos lá, embora a ausência do Romário fosse percebida por todos. Me embarcaram num vôo junto com a seleção campeã que havia ido a São Paulo receber homenagens e uma premiação da prefeitura.

Quase todos os campeões estavam a bordo e eu lá, como um Wally, tinha sido embarcada junto com a equipe campeã brasileira de futebol. Era demais. Só eu mesma: nascida no interior de Minas e junto com a Seleção Brasileira- a glória, de Leopoldina para o mundo. Difícil de acreditar. Seria eu mesma?

Livro à parte, olhei pro Bebeto e quase chorei. Agradeci a alegria que ele nos deu e fiquei em êxtase. Estava com todos eles e com a minha timidez que não me permitiu pedir um autógrafo sequer. Será que as meninas iriam acreditar? Foram os 50 minutos mais extasiantes da minha vida. E elas acreditaram, mesmo sem apresentar prova alguma. Estava no meu olho; no meu jeito de contar o "causo" ; de como eu era feliz por causa disso tudo, do acaso.

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Vi muito futebol verdadeiro. Muita garra. Apaixonei! Entre um período e outro vi, desta vez vindo da Grécia, os conterrâneos que embarcavam sem graça em Paris, antes até, do vexame final, que culminou com um Ronaldo decaído,zonzo em campo, naquela final inesquecível. O que foi aquilo? Um ídolo desorietado em campo... Estava na cara que ele não estava em condições normais de temperatura e pressão. Uma decepção pra uma "louca por futebol".

E de jogo em jogo, foram se sucedendo Copas, ídolos, ídolos caídos, derrotas vergonhosas e lindas vitórias. Mas na Copa eu esqueço tudo e volto a perder a cabeça. A querer contar histórias de futebois qu vi e não vi, mas que, não sei porque, não consigo esquecer. Foram dribles geniais em épocas de poucas táticas e muitos talentos. Fora gols inesquecíveis, gols de bicicleta; de cabeça; do que a oportuidade permitisse. Gols de placa. Queria que as meninas conhecessem isso, gols de gênio, calculados mas parecendo ser por acaso. Esse era meu grande sonho pra elas.

Hoje fui ver o jogo Brasil e México com a garotada, amiga de sempre do colégio que as duas fizeram o primeiro e segudo graus. Nem tão garotada assim, vamos admitir, porque a maioria já se formou em medicina, engenharia, comunicação. Mas me chamam "tia" então são sobrinhos meninos. Fomos a um bar no Rio de Janeiro. Super lotado e todo amarelo pelas vestimentas dos presentes. Rapazes gritado hinos de torcida e muita alegria. Mas - talvez pelas tantas partidas que vi, deu pra perceber que o Brasil não ia implacar. Cade você Neymar? Fred foi a primeira substituição. Mas Fred? Meu ídolo tricolor e mineiro ainda por cima? Que jogo é esse? Vou desistir.

Mas - pra ser sincera- eu lá entendo alguma coisa? Acho que sim, porque deu pra ver logo de cara que não era jogo, e sim um pelada de escola. Que decepção. Que saudade das jogadas geniais feitas com arte e sem técnica.

Como eu gostaria de não ser louca por futebol. Como eu gostaria de não estar frustrada agora com tudo: com o mundo, comigo e com o Felipão. Comigo, porque acreditei e fui até o fim. Com o Felipão porque ele tem uma responsabilidade enorme e não pode dar a bobeada que deu. Com o mundo, porque ele está todo nas ruas do Rio de Janeiro cheio de esperança de ver vitórias lindas.

Filhas, perdão por fazer vocês amarem o futebol como eu. Juro, no passado era uma coisa de louco ver as partidas; um assombro, um grande prazer, uma arte, era hipnótico. Agora,o que acontece hoje, não sei. Tem FIFA demais aí; tem lucro demais e arte de menos, infelizmente. Melhor baixarmos a bola.