É certo que não há criatividade ou otimismo que supere, por enquanto, o susto causado pela derrota de Brasil 1 X Alemanha 7. A falta de um título que traduza meu sentimento fez com que eu parafraseasse o romance de Gabriel Garcia Màrquez, que conta a história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada. A incrível e triste história do "país do futebol" começou bem antes da desalmada lavagem de gols que se abateu sobre nós, brasileiros estupefatos, diante de fatos sem argumentos.

No jogo que valia a vaga na final da Copa do Mundo 2014, no Mineirão, em Belo Horizonte, estávamos sem Neymar e Thiago Silva, mas a imprensa repetia sem parar que éramos 200 milhões em campo.

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Seria o suficiente se apenas os 11 estivessem realmente em campo. Mas os golpes sucessivos foram demais para a frágil saúde da seleção brasileira que, historicamente, não tem nervos para reagir a um primeiro gol adversário. E é a cena do tento de Oscar em câmara lenta, ao apagar das luzes do segundo tempo da partida, que me faz seguir o impulso de contar minha versão sobre o que teria havido com a seleção pentacampeã, que tem fãs no mundo inteiro e entra para a história do futebol, não por perder uma partida de semifinal de Copa do Mundo, mas por assistir, apática e tonta, à performance dos "alemães e seus canhões", (como canta Chico Buarque), sem ousar enfrentá-los.

Em um texto anterior, onde também falo de minhas impressões sobre a Copa das Copas (agora, ainda mais que antes, merece esse título, pela emoção, surpresas, recorde de gols e participação das torcidas), citei algumas previsões catastróficas que, felizmente, não se confirmaram.

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Jamais poderia supor que esta maior surpresa, contrária a qualquer previsão de placar, ultrapassaria a mais pessimista das previsões... Para cada torcedor, é claro, o começo e o fim dessa história delineiam-se a partir de pontos diferentes. Para mim, o sonho do hexa começou na Copa das Confederações, quando a seleção brasileira, leve e fagueira, embalada pelo hino cantado à capela (que fez vibrar tantos corações em Fortaleza e no país inteiro), entoava em verso e prosa a esperança de repetir o feito de 2013 e de se tornar a primeira hexacampeã mundial de futebol.

Como confirmou David Luiz, com os olhos vermelhos, após a partida contra a Alemanha: "Eu só queria fazer o meu povo feliz". Para mim, caro David, não foi a histórica derrota contra a Alemanha e o realismo fantástico daquela sequência de gols que estilhaçaram nossas vértebras. Foi o empate sem gols contra o México, quando um cabisbaixo Neymar saiu do campo em absoluto silêncio, sem entrevistas. Aquele exato instante, para mim, foi o início do fim: minha cabeça dizia que sairíamos mais cedo da competição, enquanto o coração, afoito, tamborilava descompassado, "mostra tua força/mostra tua força, Brasil".

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Ao contrário do baticum cardíaco, a coluna vertebral rendia-se aos fatos.

Muito se falou (até abusar, inclusive) sobre a joelhada na terceira vértebra de Neymar. Muita barbaridade sofreu o colombiano que - querendo ou não - a praticou. Excessivas notícias irresponsáveis sobre a volta do Camisa 10 à Copa. Milhares de mensagens de carinho, de um lado, e tantas outras pedindo para que se falasse noutra coisa, nos assuntos urgentes que merecem serem debatidos no país. A seleção elegia, ali, o desvio de foco ideal para a histórica despedida do Brasil na Copa de 2014. Queimaram Judas e mais Judas. Entre os escolhidos como culpados estão Felipão, Fred, Hulk, o meio campo, a defesa, o ataque, a falta de Neymar e Thiago Silva, a imprensa caolha e - pasmem! - a própria torcida, que não teria dado força suficiente à desnorteada equipe.

Daqui a pouco tempo, quando olharmos para tudo isso com a serenidade da distância do tempo passado, sem nos deixar afetar pelas manchetes mundiais que nos embotam a racionalidade e nos ferem a alma, aprenderemos a lição e continuaremos, firmes, em busca de um novo futebol. Espero que, principalmente, em busca de uma nova política, uma nova consciência, uma humildade transformadora, um planejamento paciente de vitórias e alegrias, um novo jeito de ser brasileiro. Com muito amor, mas com orgulho na medida certa e por justas e reais razões. Ainda podemos, sim, mudar de rota e, desta vez, aprendendo com os próprios erros. Contra a Holanda de Hobben, lutando pelo terceiro lugar, podemos ou não pôr no sol a alma lavada, afinal a máxima do futebol, da caixinha de surpresas, continua valendo. O certo é que seremos vencedores quando, finalmente, trocarmos o choro de uma partida pela vitória de enxergarmos ao longo prazo.

Sim, independentemente de minha posição política e de ser torcedora apenas de quatro em quatro anos, eu fiquei triste com a surra que levamos. Muito triste. Mas sugiro que a gente não avalie somente a terceira vértebra, mas todas as vértebras trincadas que nos impedem de andar, de seguir adiante. Que possamos fazer um mea culpa consciente e claro das nossas fragilidades e virtudes, não somente na Copa de 2014, mas nas três últimas competições mundiais, onde a emoção, a "arte", a supervalorização do passado e o improviso trabalharam contra nós.

Mais ainda: que neste e todos os outros momentos a gente saiba honrar o país da alegria, do povo que vai às ruas (seja para protestar ou festejar), da hospitalidade, de um David Luiz que consola o craque James Rodriguez, de um Júlio Cesar resiliente, que sabe dar a volta por cima. Que a gente saiba reconhecer em cada um de nós a sabedoria de recomeçar, rindo de si mesmo, tropeçando aqui e levantando ali, mas observando, com clareza, a técnica honesta e respeitosa de um bom adversário como a Alemanha, que deu um show de bola. Autocontrole, estratégia, yoga (por que não?), união de equipe (acima dos valores individuais) talvez sejam as pistas que o time europeu nos tenha dado de presente para seguirmos (re)aprendendo e (re)construindo nossa pátria de chuteiras. Bola pra frente, Brasil!