Sonhar com o hexacampeonato já era bom, imagina sonhar com o título aqui no Brasil. Este país de mais de 200 milhões de habitantes esperou ansiosamente por esta Copa do Mundo. O povo começou a sofrer antecipadamente, desde o anúncio de que seríamos o país-sede do Mundial. Obras gigantescas foram iniciadas, recursos nunca liberados foram priorizados para o maior espetáculo esportivo da terra. Nós, belo-horizontinos, vimos as nossas vias há pouco construídas como linha verde cederem lugar às obras do BRT MOVE, o comércio foi afetado, o asfalto recém-colocado foi substituído pelo concreto e pelas novas estações, que mais pareciam grandes casulos metálicos.

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Enquanto isso, nos estádios, demolições e implosões: o nosso querido Mineirão sucumbiu primeiro e foi também a primeira arena a ser entregue à FIFA para o espetáculo-mor. Na Arena Corinthians, os acidentes e os percalços se sucederam. Trabalhadores anônimos e despreparados pagaram com suas vidas a pressa da preparação para o início dos jogos. O grande show não pode atrasar, o circuito é de concreto e ferro. Os protagonistas são os mais caros do mundo - ou os melhores do mundo? Em 12 de junho de 2014, no horário previsto, o grande show teve o seu início. O mundo do esporte voltava a sua atenção para o Brasil. A dengue, a falta de moradia, as diferenças sociais foram esquecidas e nos tornamos apenas uma massa de mais de 200 milhões de torcedores verde-e-amarelos. O comércio popular ganhou o seu quinhão, a rede hoteleira antecipou o faturamento de meio de ano, os turistas vieram e trouxeram os seus dólares.

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Os meninos de ouro, os deuses do futebol vieram aos santuários do esporte na cidade maravilhosa e em outras metrópoles desta sofrida nação, agora mais colorida e entorpecida pela competição e pela esperança do sexto título mundial. Mas nem tudo são flores, o viaduto caiu, nossa seleção sucumbiu por 7 a 1 na segunda maior arena, e por 3 a 0 na disputa do terceiro lugar. O balde de água fria no ânimo nos traz de volta aos postos de saúde sem médicos, às nossas estradas esburacadas, à nossa condição de terceiro mundo. Os meninos de ouro com seus salários milionários voltam de cabeça baixa para seus palácios. E nós, pobres torcedores sonhadores, voltamos aos quarto e cozinha, aos 48 metros quadrados da minha casa, para a minha vida, para o salário mínimo de R$724,00. E com uma certeza: não somos o país da saúde, não somos o país da educação, não somos o país das ferrovias, e, agora, não somos o país do futebol. Os alemães não levaram só o nosso título. Levaram também a nossa alegria.