A coletiva da Comissão Técnica da Seleção trouxe à tona um comportamento defensivo bem diferente do que vimos na terça-feira no Mineirão. Felipão e Parreira, mostrando que aprenderam alguma coisa na aula alemã, armaram uma retranca na sala de imprensa da Granja Comary, com um monte de desculpas e estatísticas para truncar a entrada da área e minimizar o fiasco visto em campo. E assim, atirando para todos os lados, Felipão acabou acertando no que, para mim, é a razão da avalanche que se abateu sobre nós: a pane de seis minutos.

Não sei se você já passou por uma situação semelhante, em que um plano cuidadosamente definido ruiu por terra ao ter violada uma das suas condições sine qua non.

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É uma sensação horrível, de impotência e estupor, incredulidade e desespero - imagino que é assim que se sente um lutador à beira do nocaute. E foi isso que vimos no Mineirão entre o 1º e o 4º gol alemão. Jogadores profissionais, alguns deles entre os dez melhores do mundo na posição, em uma Semifinal de Copa do Mundo, sem conseguir fazer o básico, atônitos como crianças em meio a um jogo de adultos.

Desde a contusão de Neymar, Felipão vem administrando doses cavalares de autoconfiança nos nossos jogadores. Aqui é Brasil, porra, como já anunciara o capitão no jogo passado. Deixa os alemães se preocuparem com a gente. Joga o nosso jogo, faz a nossa parte. Keep cool and joga pra mim. Em síntese, apostou na fórmula que vinha aplicando desde que reassumiu a Seleção, de otimismo e motivação, em que a torcida, a camisa e a autoestima dos jogadores seriam suficientes para equilibrar as ações em campo.

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Algo como um doping psicológico. Algo que funcionara tantas vezes nos times sob seu comando.

Porém, o equilíbrio emocional, a força mental e os demais aspectos psicológicos estão longe de ser o ponto forte desse time, especialmente nessa situação. A pressão da imprensa e da torcida (a maior já vista em qualquer esporte, em qualquer país), a emoção de jogar uma Copa do Mundo em casa e até o hino à capela contribuíram para deixar os nervos dos jogadores bem tesos, próximos de estourar. As lágrimas antes, durante e depois da disputa de pênaltis com o Chile deixaram bem claro: o time todo estava com medo de um fiasco.

E como lidar com esses nervos à flor da pele? No futebol, existe uma solução simples: você tem que ter um cara que ponha a bola debaixo do braço e acalme o time. Como Didi em 58, após o gol da Suécia. Como Garrincha em 62 após a contusão de Pelé. Alguém experiente, que possa falar para os demais "calma, garoto, tá tudo sob controle".

Mas quem seria esse cara no time? Julio César, que luta contra o fantasma de 2010 até nos treinos? Thiago Silva, que nem conseguiu assistir aos pênaltis de tão nervoso? David Luiz, com seus olhos esbugalhados e a cara de doido, vai acalmar alguém? Fred, que foi massacrado pela opinião pública desde o primeiro jogo? Não, o único cara desse time com moral para fazer isso foi, desde o começo, Neymar.

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Só Neymar e ninguém mais. Romário teve Bebeto, Ronaldo teve Rivaldo, mas Neymar esteve sozinho, sem alguém para compartilhar o fardo de ser o cara que resolve no time. Aos 22 anos, foi ele o cara que acalmou o time quando Marcelo fez 1x0 para a Croácia no primeiro jogo.

Afora o acúmulo de funções do nosso camisa 10, não haveria nenhum problema em ser ele esse cara. O problema veio em não se ter substituto para ele quando do advento da joelhada nas costas. Óbvio que não há um substituto técnico, mas era imprescindível ter alguém que pudesse fazer seu papel psicológico em campo - alguém que funcionasse de pára-raio para os demais jogadores. Acredito ser esse o arrependimento de Felipão na convocação, externado durante a Copa. Não havia um veterano no grupo, alguém temperado pelas batalhas, capaz de trazer a experiência à campo quando necessário.

Kaká, Ronaldinho Gaúcho e até mesmo Robinho podiam ter desempenhado esse papel. Como não vinham de boa temporada, não seriam sombras aos titulares, não teria pressão da torcida por colocá-los em campo. Poderiam apenas e tão somente trabalhar nos bastidores para fortalecer o grupo. E quando Neymar foi abatido, estariam disponíveis para assumir a lacuna de liderança no time.

Felipão e Parreira têm razão quando dizem que os 7x1 foram resultado de uma pane mental do time. Só esqueceram de dizer que era função deles evitar essa pane.