As previsões para a Copa do Brasil 2014 eram as mais catastróficas possíveis: o mago Paulo Coelho, com os ingressos em mãos, disse que não viria assistir a nenhum jogo porque o país ia explodir em manifestações políticas. O cineasta Arnaldo Jabor disse que o evento seria a revelação da incompetência brasileira. Uma revista nacional garantiu que os estádios não estariam prontos a tempo. Mas a resposta a tudo isso foi a de uma catadora de materiais recicláveis de Minas Gerais, cujo vídeo foi compartilhado mais de mil vezes nas redes sociais: "Depois de ver tantos países de primeiro mundo realizando este evento, depois a África, eu me pergunto: que dia que o brasileiro vai ver que a gente é capaz de fazer uma festa maior, para mostrar aquilo que já acontece todos os dias nos nossos gramados? Nossos meninos já nascem com a bola no pé. Diante dos problemas da África, somos ricos, podemos fazer, sim. Vim pela primeira vez ao Mineirão e estou encantada!", disse ela, após o jogo Brasil X Chile, que emocionou e assustou toda a nação verde e amarela. Ela não foi a única: a imprensa internacional elogia o evento, que já considera "a copa das copas".

Pouco antes do jogo de abertura, o craque Pelé, considerado o melhor jogador de futebol do mundo, sofria com um engarrafamento de trânsito que não o permitiu chegar a tempo à Arena Corinthians, em São Paulo. Teve que assistir o primeiro tempo do jogo pelo rádio, dentro do carro. Um apagão parcial, uma mal educada vaia e a presença de um pseudo atirador (na verdade, era apenas um policial) quase estragam a festa. Coisa de copa do mundo. Entretanto, o que vem marcando a copa brasileira é a explosão de cores, a alegria, o congraçamento entre os povos, inclusive entre torcidas que estão em lados opostos na mesma partida. O resto, como a vaia de parte da torcida brasileira durante a execução do hino chileno, no Mineirão, felizmente, é exceção. Como também são exceções os comportamentos do Luizito Soàrez, herói-craque do Uruguai que costuma mordiscar seus adversários (desta vez, mordeu o italiano Giorgio Chiellini) e a rigorosa punição da Fifa. O mais comum é encarar tudo com o bom humor tipicamente brasileiro, como fez o próprio Georgio, ao tirar foto com uma fã que recria a mordida em seu ombro, enquanto ele acha graça.

O empurrão que o Nyom, da equipe dos Camarões deu em Neymar, sem bola e fora do campo, passou em brancas nuvens - talvez fosse mesmo o empurrão que o craque brasileiro estava precisando para marcar o próximo gol em Brasília. O incidente nem chega perto do sucesso que fez a torcida e os visitantes de todos os cantos do mundo: a venezuelana assustada, o locutor português apaixonado pelo Brasil e pelo "rei" Roberto Carlos, o colecionador ucraniano que sabe tudo sobre o futebol brasileiro, as "olas" e o cantar emocionado do hino em Fortaleza, que fez chorar os jogadores brasileiros.

Ainda que não seja considerada na história do futebol como a melhor, certamente será, de longe, a que mais desfez estereótipos, expectativas, previsões e títulos. Depois dela, repensemos no título de "melhor jogador de mundo", do português de cabelo arrumado, Cristiano Ronaldo, autor de um único gol na competição, antes de ver sua seleção sair da copa, cabisbaixa. Decepção. Também voltaram para casa antes do tempo a "melhor do mundo" Espanha, a Itália, a Inglaterra; enquanto a Costa Rica, a Colômbia e a Holanda de Robben e até a Argélia arrancam suspiros e a admiração do mundo inteiro. O mesmo não se pode dizer da gana e indisciplina da equipe de Gana.

A arbitragem, sem dúvida, vem sendo o maior frangueiro da competição: erra na marcação de pênaltis, impedimentos, falta ou excesso de cartões amarelos e vermelhos, sem falar no juiz que conseguiu, ele mesmo, fazer a falta em um atacante a caminho do gol. Talvez coubesse a eles punição semelhante à que sofreu o craque uruguaio em seu exercício bucal. As denúncias vazias de que os juízes favorecem a seleção da casa foram por água abaixo na partida Brasil X Chile, onde os brasileiros também foram "agraciados" com um gol anulado e um polêmico pênalti não marcado. Fica a dica para a Fifa.

Mas a maior revelação e/ou consagração da Copa do Brasil são mesmos os craques: James, da Colômbia, 22 anos, Neymar Júnior, do Brasil, 22 anos. O fantástico Quadrado, também da Colômbia, Luiz Soàrez, do Uruguai, Miller, da Alemanha, Benzema, da França, todos com características pessoais inesquecíveis. O brilho desses jogadores acabou ofuscando a fama de Lionel Messi que, ao contrário do que esperava a torcida, não virou o Messias argentino e nem ficou entre os 10 melhores no ranking da Fifa, que apontam James Roriguez (Colômbia), Ivan Perisic (Croácia) e David Luiz (brasil) como os três primeiros colocados.

O recorde no número de gols faz a festa no Brasil, que promete ainda alguns espetáculos imperdíveis. A latinidade mostrou que nasceu com bola no pé, e colorindo o mundo. O Brasil inteiro entregou a chuteira e se rendeu a uma memória coletiva, do tempo em que, mesmo na ditadura de 1970, conseguia cantar: "todos ligados na mesma emoção, vamos juntos, vamos, pra frente, Brasil, Brasil! E junto a esta imagem afetiva une-se agora outra cena, que vem do Japão: uma mulher explicando porque estava catando toda a sujeira produzida pelas torcidas no estádio, durante uma partida. É este gesto simples que ficará na minha memória, sempre que se falar sobre a Copa do Mundo 2014.