Estamos no ano de 1985, um sábado ensolarado de final de novembro. A arquibancada do Parque Antártica estava completamente lotada para o confronto entre Palmeiras e Ponte Preta pelo Campeonato Paulista. Havia um clima estranho no ar. A torcida estava eufórica, num manto interminável de verde e branco na esperança de mais uma vitória. Mas havia outra coisa.

Nunca fui membro de qualquer torcida organizada nem jamais serei. Não combina com meu estilo de assistir a uma partida de futebol. Prefiro o acompanhar atento, a análise tática da equipe, o sofrimento individual em cada lance e a alegria da vitória de forma contida, mas satisfeita.

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Porém, quis o destino que, naquele dia, fosse eu me acomodar nas arquibancadas do Palestra, bem no meio de duas grandes torcidas organizadas: a Mancha Verde e a TUP.

Até aí, tudo bem, fiquei na minha e me concentrei em torcer, independentemente de quem estivesse ao meu lado. E que jogo sofrido que foi. Final do primeiro tempo e a coisa complicou. Começo a observar mais acima de onde estava e vi um movimento incomum, já que intervalo de jogo é momento de comprar guloseimas e sossegar o facho. Mas o clima era outro, havia uma efervescência cada vez maior contagiando toda aquela multidão.

Quando dei por mim, estava feito. Um verdadeiro derramamento. Sangue? Não. Farinha. Muita farinha. Fiquei completamente à milanesa, sem entender o por quê daquilo tudo. Até que o pessoal da Mancha começou a cantar a popular "Parabéns a Você".

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E naquele momento, fui saber que a torcida-irmã TUP estava comemorando seus 15 anos de existência. Foi uma verdadeira festa entre torcidas e, sem querer, eu estava no meio, participando cheio de farinha por todo o corpo.

Começa o segundo tempo e a festa é deixada de lado para acompanhar a luta palestrina por uma vitória. E o imponderável novamente tomou conta do estádio. Uma chuva pesada desabou sobre o Palestra e acabei virando um angu humano, uma mistura grudenta e pegajosa de farinha com água.

Logicamente, ao chegar em casa, pude ver o olhar de contentamento de minha mãe ao reparar o meu lastimável estado. Pensei em fugir, mas do jeito que estava, seria preso por atentado ao pudor. Melhor entrar, levar a bronca costumeira (um pouco mais intensa, desta vez) e correr para o chuveiro para tirar toda aquele grude de meu corpo. Tá bem, tá bem. Você quer saber o resultado do jogo, não é? Palestra 3x2 na Macaca.

Essa e inúmeras outras histórias queridas me unem ao alviverde mais amado do Brasil.

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Sempre fui palmeirense, desde que nasci, pois toda a minha família assim o era. Desde o meu bisavô, que foi técnico do Verdão creio eu na década de 40 e hoje descansa em paz no Cemitério Municipal, no túmulo do Palmeiras. Quanto orgulho! Minha avó, filha dele, foi atleta também no clube da Turiassú. Meu tio-avô tinha sido árbitro de futebol, senhor Hélio Coelho, e sempre me levava aos estádios para assistir o Palestra, juntamente com seus irmãos, Eduardo Coelho e meu padrinho Mário Simeão Coelho. Era uma festa pra mim. Chegava o final de semana e eu, com apenas 6 anos de idade, já estava pronto para mais uma aventura! Bauru, Sorocaba, Piracicaba, Ribeirão Preto...Viajava com todos eles para acompanhar meu amado Palmeiras pelo Campeonato Paulista que, naquela época, tinha muito valor. Sem esquecer que, próximo ao intervalo das partidas, já ficava aguardando ansiosamente que meu tio chamasse o sorveteiro e me comprasse um "Eskibon", o qual devorava com alegria e satisfação.

Cresci numa década difícil para o Palmeiras, os anos 1980. O último título alviverde tinha sido em 1976, com Ademir da Guia em final de carreira. Daquela época, herdei uma camisa e uma faixa de campeão autografada pela maioria dos jogadores da segunda Academia. Acabei vendendo-as depois para um colecionador, pois minha carteira clamava por recheio naquele momento.

Como sofri nessa época! Grandes equipes, fracassos retumbantes! Inter de Limeira em 86, depois eliminação contra o Bragantino em 89 e por aí vai... E quando as esperanças de ver meu Palestra campeão estavam se esvaindo, eis que surge a parceria com a Parmalat e uma década de vitórias e conquistas me levaram ao ápice do sentimento de saber o que é ser campeão. Primeiro em 93. Dose repetida em 94. E sempre ouvindo Milton Neves dizer no rádio: "É sintomático! É sintomático!". Depois, aquela maravilha que foi o que chamo de terceira Academia. O Palmeiras de 96 dos 102 gols em 30 jogos.

Nessa época, já trabalhava como radialista e era repórter de campo no sul do país, pela Rádio Aliança de Concórdia-SC. O Palmeiras ia enfrentar o Grêmio no Olímpico e o principal assunto nos bastidores era a saída polêmica de Muller para retornar ao time do Morumbi. Antes de começar a partida, entrei no campo com meu microfone e um cabo de 10 metros, me aproximei dele e perguntei na lata: "Muller, como estão as negociações para seu retorno para o São Paulo?".

A quantidade de impropérios que ele me disse, ao vivo, não posso descrever aqui. Mas foi muito mais que merecido. Naquele exato momento aprendi que um repórter deve saber o que e de que modo perguntar. Meu momento de "imbecil do rádio" ficou registrado, senão na cabeça dos ouvintes, em minha memória.

Seja como torcedor, seja como cronista esportivo, as emoções que vivi, que vivo e que viverei com meu Palestra são descritas como parte integrante de minha existência. Mas, acima de tudo, é a magia da bola nos pés dos craques palestrinos que fazem com que uma nova geração se levante e encante.

E meu Palmeiras comemora seus 100 anos de existência. Uma história belíssima, de quatro imigrantes italianos que acreditaram num sonho, compartilhado hoje com mais de dezesseis milhões de torcedores espalhados por todos os cantos do mundo.

Avante, Palestra!