A Fórmula 1, esporte e negócio, está atravessando uma crise de popularidade por todo o globo. Existem mil razões para isso acontecer, e a principal será a não adaptação à era digital. É uma curiosa ironia: num mundo onde só o dinheiro e os resultados contam, e quem não mostra serviço é despachado na hora, o esporte continua confiando em seu ancião Ecclestone, que vem liderando a tribo faz 40 anos, e reverenciando suas ideias, mesmo quando ele repete que o Facebook é moda e a TV é o futuro. Mas a própria evolução dos pilotos afeta a percepção que o público tem de seus ídolos.



A queda na performance de Sebastian Vettel em 2014 é o mais recente desses motivos.

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Na história, só tinha 3 pilotos (Fangio, Prost e Schumacher) com 4 ou mais campeonatos, até 2013 quando Vettel se juntou a esses heróis. Olhando o passado, todos eles eram "infalíveis": se podia prever que era difícil, ou quase impossível, para seus colegas de equipe, batê-los na pista. Afinal, esse foi um dos maiores feitos de Ayrton Senna: foi o único piloto, em 13 anos de carreira de Alain Prost, que conseguiu se bater de forma regular com o francês no mesmo carro. (Lauda também conseguiu bater Prost, mas de outra forma, segurando as pontas, pois se sabia bem mais lento que o francês.) E também Senna, claro, está incluído nessa categoria: quem, além de Prost, conseguiu chegar perto do tricampeão pilotando na mesma equipe? Esses eram verdadeiros semi-deuses.

Já tem Vettel tem comido o pó, de forma regular, deixado por seu jovem colega de equipe Daniel Ricciardo na Red Bull.

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Dentro do domínio da Mercedes, é humilhante que Ricciardo seja o único a vencer corridas em 2014 além de Rosberg e Hamilton. O próprio time germânico defende seu "tetra", invocando as diferenças tecnológicas causadas pelo novo regulamento, e às quais Vettel demora a se adaptar.



Mas a galera fica pensando. Se Vettel não está confortável agora, será que não ganhou 4 campeonatos "só" por ter um conjunto carro-motor adaptado a seu gosto? Como ficaria Mark Webber nesse ano de 2014? Certamente que Vettel é um ótimo piloto, mas os tetracampeonatos, antes, estavam apenas ao alcance dos maiores - e isso se a morte não os levasse antes de chegarem lá. Ricciardo vem demonstrar que Vettel pode ser um piloto quase banal. Se o australiano com nome italiano não vier a se tornar uma das maiores estrelas do esporte, justificando estas performances, é o estatuto dos campeões atuais que sai perdendo. Afinal, muitos seguem considerando Alonso como o maior piloto de nosso tempo - apesar de só ter 2 campeonatos.



Para sermos otimistas, vamos imaginar que estamos em um período, como outros na História, em que não tinha uma referência de piloto bem clara na ponta. Assim aconteceu entre 1978 e 1982, quando 5 temporadas tiveram 5 vencedores diferentes, e 4 deles (Andretti, Scheckter, Jones e Rosberg) nunca repetiram a proeza. Só Piquet o fez, entrando depois para a galeria dos maiores.