Agora a Copa do Brasil tem história. Isto irrita um amigo, que relembra as conquistas do Cruzeiro. Mas essa é outra história, que em alguns livros precisa ser escrita com a primeira letra maiúscula, para dar-se o ar de importância. Mas, para mim, a história que importa é aquela que tem o privilégio de  ser grafada estória, como insistia Guimarães Rosa, que aderiu a uma explicação tradicional que define história como a disciplina acadêmica e estória a indisciplina artística.

Uma explicação nos deu outro estoriador, que por sinal nem gostava de #Futebol: Jorge Luís Borges. Ele contou que ao conseguir o emprego na biblioteca, não tinha muito o que fazer, assim como os demais empregados que passavam o dia papeando.

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Um dos assuntos principais era o futebol. Borges tentou se enturmar e alguém perguntou para qual time ele torcia. Borges informou que não tinha um time. Foi aconselhado a informar que torcia para o San Lorenzo, esse time do papa atual, pois era o time da região. Assim fez o escritor argentino, que por curiosidade passou até mesmo a seguir os resultados dos jogos nos jornais. Porém, ao perceber que o time do San Lorenzo não tinha muito sucesso, questionou os companheiros a razão de lhe indicarem um time que só perdia. E ouviu a seguinte resposta:

“Borges, não é importante ganhar. O importante é como se perde.”

Alguns podem ler a frase acima e encontrar os traços de um sofredor resignado. Outros podem até louvar o espírito olímpico e associa-la com as imagens da maratonista Gabrielle Andersen na Olimpíada de 1984.

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Seremos lembrados da nossa empatia arquetípica com os perdedores, afinal a maioria das civilizações escolheu descender dos troianos e não dos gregos. Mas não, há algo que devemos ver no que não está presente nesta história: assim como é importante a forma como se perde, é igualmente importante a forma como se ganha. Afinal, a diferença entre a vitória e a derrota é bem mais ínfima do que pretendem os estatísticos. Isso quer dizer, a forma como você disputa não determina vitórias e derrotas, determina a história que será contada.

Não há história como a história dessa Copa do Brasil, das viradas impossíveis, da final dos sonhos contra o vizinho – rival é um termo forte demais neste caso – ampliadas pelos feitos igualmente improváveis da Libertadores do ano anterior. De certa forma, ela nos ajuda a restabelecer a ordem das coisas, quando alguns jogadores afirmaram que a Copa do Brasil seria o maior título do Atlético. A única razão é por causa da história. História que é uma conquista e não se mancha com as assinaturas dos dirigentes e jornalistas modernos.

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A história é único critério que é objetivo. Nada de respondermos a uma necessidade meramente cronológica ou aos caprichos do momento. Afinal, quem não se lembra que há algumas décadas os times brasileiros desprezavam a Libertadores e o maior time que o mundo já viu, preferia fazer amistosos? Daqui a alguns anos a importância da Libertadores pode ser outra, coisa já em andamento, ou não é nítido a leitura que alguns canais esportivos fazem de maneira pejorativa da libertadores, inclusive usando “Jogo de libertadores” para comparar aos jogos da Liga dos Campeões da Europa que são amarrados e pouco técnicos (quando técnico aparentemente é só a capacidade de manter a possessão de bola)?

O que nos leva aos contadores de história do futebol de hoje, os jornalistas.

Continua...