Continuação de A história e a estória do #Futebol em 2014 – Parte I

A modernidade do jornalismo é inimiga da história. São dois os principais tipos de jornalistas que prosperam nessa época. Um tipo é que reduz a importância das competições como as estaduais. Esse jornalismo tenta convencer por anos que o Atlético passou décadas – a minha geração – sem ver um título importante. Quer pegar uma borracha e apagar a história de quem comemorava título estadual pelas ruas de Belo Horizonte. Transformava as derrotas nacionais em uma vergonha, sem pensar que um dia o acaso traria os títulos que faltaram para Reinaldo e sua geração. Bastava continuar lutando como lutava.

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Esse tipo de jornalismo conseguiu por incrível que pareça fazer com que parte da torcida acreditasse nessa lorota. Não concordo que a história seja contada pelos vencedores, mas o jornalismo só quer contar as histórias das vitórias.

O outro tipo é que valoriza o futebol europeu. O imaginário do nosso futebol se formou graças a mistura entre o talento dos jogadores e dos seus cronistas. A geração modernista abraçou o futebol como causa, uma alegoria do mito das três raças (sim, a realidade pode ser uma alegoria de nossas mitificações) e autores como Nelson Rodrigues, João Saldanha e Mário Filho foram os nossos maiores contadores de histórias. Já, a geração de comentaristas mais jovens amadureceu a partir da década de 90, com olhar, assim como grande parte do olhar futebolístico brasileiro, voltado para Europa.

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Eles estão munidos de gráficos, números, pranchetas virtuais, etc. como se é esperando nessa época tecnológica. Mas com isso, eles esquecem que o importante é como se perde e se ganha. Não é surpresa que Nelson Rodrigues atacava os “idiotas da objetividade”. De certa forma, eles trocaram rimas e versos por números e gráficos.

Mas o maior problema é um certo caráter moral que esse jornalismo assumiu. Em nome do progresso, toda a nossa história passa a ter relativa importância. Não é que ela não é lembrada, mas ela é lembrada como parte de um livro, páginas passadas que voltamos a ler. Mas quando história é estória ela é constantemente presente. Como sugeriu o filósofo Plotino: o tempo é dividido em três. Não passado, presente e futuro e sim as lembranças, o agora e o que imaginamos que virá. Como todo “positivismo”, essa filosofia é europeia, divide o mundo em civilização e barbárie. Como aconteceu no século XIX, essa Europa e seus defensores (estamos de volta ao fardo do homem branco), não aceitam críticas.

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Os europeus são organizados, talentosos, honestos... Nós?

Esse jornalismo nunca é responsável por perpetuar os mesmos conceitos, a darem mais cobertura, por exemplo, à segunda divisão inglesa do que diversos estaduais brasileiros. Defendem uma reformulação do futebol brasileiro, que entre outras coisas valorize as divisões de base. Pois então, parem de transformar o prêmio FIFA para melhor jogador da Europa (não é e nunca foi do mundo) como algo importante. Ou eles realmente acham que é possível formar jogadores de base que valorizem os clubes e o estilo brasileiro sem que sejam preparados para exportação pelos empresários, se eles leem que o sucesso é só na Europa? Lembram-se do que eu disse na primeira parte do texto? História que é uma conquista e não se mancha com as assinaturas dos dirigentes e jornalistas modernos. O que é o prêmio senão uma assinatura de um Ricardo Teixeira suíço?

Quando um escritor começa se referenciar em um mesmo texto é sinal de que, ou ele está falando com o próprio ego e nada do que disse faz sentido ou que ele já falou demais para um texto tão curto. Qualquer que seja o motivo, não importa: acredite, o Galo apenas ganhou a Copa do Brasil.