O dia era 10 de julho de 2004. Tendo o velho Beira-Rio como palco, um rapaz alto, franzino e desengonçado aquecia atrás de uma das goleiras até ser chamado para entrar e estrear em um Grenal. Em campo, bastou somente alguns minutos para que Fernando Lúcio da Costa mostrasse na prática por qual razão se tornaria um dos maiores nomes da história do Inter. Aos 33 minutos do segundo tempo, em um dos seus primeiros toques na bola com a camisa colorada, Fernandão disparou uma cabeçada certeira para o fundo das redes e anotou o milésimo gol da história do clássico.

O dia era 7 de junho de 2014. Com outros quatro amigos, Fernandão retornava de um fim de semana de pescaria e carteado em Aruanã, no interior de Goiás, quando o helicóptero em que voavam se partiu em dois na queda logo após a decolagem.

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Aos 36 anos, o eterno ídolo colorado falecia às vésperas de trabalhar como comentarista na Copa do Mundo e deixava milhares de colorados incrédulos com a perda daquele que levou o manto vermelho ao topo do mundo.

Nascido em 18 de março de 1978, em Goiânia, Fernandão era um estranho no ninho. Fugia de um habitat natural do mundo da bola que filtra a malandragem e o jeitinho em detrimento à ética e a postura. Desde cedo, nas categorias de base do Goiás, chamava a atenção pela qualidade técnica e inteligência em campo – atributos que, sem demora, despertaram o interesse do #Futebol europeu, em especial a França, que levou o jogador embora do Brasil ainda em 2001.

Enquanto o centroavante de 1,90m fazia carreira no futebol francês no início dos anos 2000, do outro lado do mundo um gigante tentava encontrar formas de se reerguer.

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Depois de anos de domínio absoluto do rival Grêmio e do martírio vivido em Belém do Pará na última rodada do brasileirão de 2002, que quase culminou em um rebaixamento à série B, o Inter viu-se obrigado a mudar radicalmente. Dispensou medalhões, apostou nas categorias de base e melhorou a infraestrutura, mas, para voltar a ganhar, sabia o que faltava: um líder dentro de campo.

Por volta de 2004, Fernandão queria voltar ao Brasil. Com dois filhos pequenos, Enzo e Eloá, e insatisfeito no Toulouse, o jogador entendia que era hora de recomeçar. Fernando Carvalho, presidente do Inter, que já era um admirador seu desde os tempos de Goiás, buscava um jogador de área para substituir Oséas, de péssimo desempenho no início da temporada. Por intermédio do empresário Wagner Cruz, o dirigente conseguiu o contato com Fernanda, mulher de Fernandão, marcou uma reunião em Goiânia, pegou um avião, fez questão do “olho no olho” e garantiu o novo dono da camisa 9 do Inter.

Em De Belém a Yokohama, livro que conta a reconstrução vitoriosa do Inter na década de 2000, Fernando Carvalho relembra a estreia de Fernandão pelo Inter: “Nosso treinador na época era o Joel Santana e o Fernandão tinha ficado no banco.

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No decorrer da partida, teve que ser feito um arranjo e ele entrou no lugar do Wilson, com o Bolívar descendo para a zaga. Deu certo. Ganhamos do Grêmio de 2x0 e o Fernandão fez o gol 1000 da história dos Grenais. Daí por diante ele se transformou no líder que foi, a ponto de eu o considerar o mais importante da história do Inter”.  

Com a estreia predestinada, Fernandão somou, ao todo, 190 jogos pelo Inter, com 77 gols marcados em quatro anos de clube, de 2004 a 2008, quando rumou ao futebol do Catar. No período em Porto Alegre, Fernandão sorriu, vibrou, gritou e chorou. Viveu intensamente. Se lesionou, chutou na trave, perdeu títulos. Fez amigos, ganhou respeito e conquistou o mundo – título que só não pode ser maior que o resgate do amor de uma torcida eternamente apaixonada. #Sport Club Internacional