Não é hoje que a desigualdade impera nos campos brasileiros. Há uma espécie de centralização no futebol, que parece privilegiar clubes do famoso Eixo Rio-São Paulo, enquanto as agremiações de outros estado vivem de mirabolantes soluções administrativas, tirando dinheiro de outras fontes que não sejam as televisivas para se sustentar. Um exemplo é o Atlético Mineiro, que no ano de 2016 firmou acordo com a Dream World para bancar a contratação de Robinho, ou o Cruzeiro, cujas contratações costumam ter o apoio de empresas como Supermercados BH. Sim, o modelo de livre mercado utilizado pelos clubes ajuda na busca por reforços, mas ainda parece insuficiente, diante das fortunas pagas pela televisão a clubes como Corinthians e Flamengo.

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Para se ter uma ideia da absurda lógica de distribuição, em 2016, Flamengo recebeu algo em torno de 200 milhões de reais da Rede Globo, enquanto Corinthians ficou na casa dos 170. Outros clubes paulistas seguem logo atrás, como São Paulo, com rendimentos na marca de 100 milhões. Depois dos paulistas, seguem os mineiros, com valores de 60 milhões, menos da metade dos ditos clubes mais populares do país. Diante desse quadro de insuperáveis desigualdades, é quase um milagre que times fora do Eixo consigam disputar títulos, e mais impressionante ainda que o Brasil não tenha se transformado numa Espanha, com dois ou três clubes sempre disputando os canecos, enquanto o restante amarga posições intermediárias, com um ou outro tendo a rara chance de disputar torneios continentais.

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Não para ganhar, é claro, mas só para participar.

O Brasil só se salva do destino trágico de dois ou três eternos campeões nacionais por conta da má administração dos cartolas brasileiros, chegados a gastos exorbitantes em jogadores que pouco retorno dão. Por aqui, sempre foi muito popular o gastar pelo gastar, e o poupar tratado como verbo proibido, quase criminoso. A regra vem mudando com as leis de responsabilidade fiscal, lentamente, mas vem mudando, e já há discussão entre os clubes para alteração do modelo de cotas, diálogo aceito pela Globo, agora que o Esporte Interativo ameaça sua soberania com promessa de melhores pagamentos e mais abertura para negociação. Os moldes discutidos já mostram mais flexibilidade: 30% por desempenho em campeonatos, 30% pela audiência, e outros 40% divididos em igualdade. Se esse pontos serão ou não cumpridos, só o tempo irá dizer, mas a mera discussão do assunto já dá algum alento.

Talvez, com uma divisão mais igual, clubes de menor expressão possam ter maior espaço nas disputas principais, desde que sejam criativos em contratação.

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Sabemos muito bem que o Brasil é um país de inesperados acontecimentos, como o bicampeonato nacional do Cruzeiro, nos anos de 2013 e 2014, e que até hoje é encarado como um feito fora da lógica natural do Brasil, em que paulistas e cariocas costumam ter o protagonismo das competições. E continua sendo milagroso que em um país de desiguais divisões em cotas futebolísticas, ainda não tenhamos nos transformado numa Espanha, com Corinthians e Flamengo sempre no topo, e os outros, batendo palmas e brigando mais abaixo pelas migalhas. #BrasilXEspanha