Alto, esguio e com cabelos encaracolados que justificavam o uso da bandana. Sorriso sempre largo no rosto e, abaixo, roupas coloridas que mais indicavam um folião de carnaval do que um tenista. Gustavo Kuerten quebrou paradigmas, confiou no próprio talento e foi fiel ao seu estilo para, há 20 anos, sagrar-se campeão de Roland Garros – o segundo Grand Slam da temporada do tênis e o único a ser disputado no saibro.

O jeitão de surfista e boa praça poderiam fazer os torcedores pensarem que ele, #Guga, estava no esporte errado. Como portava uma raquete e não uma prancha? Por que o saibro e não a praia? Rede ao mar? As respostas começaram a ser dadas na disputa de Roland Garros de 1997, quando Guga, além de ficar mais conhecido a cada rodada, surpreendeu o mundo do tênis ao bater em série os principais favoritos e iniciar um caso de amor com a capital da França.

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Guga era apenas o 66° colocado do ranking mundial quando desembarcou em Paris, o que portanto não lhe creditava, sob nenhuma hipótese, algum tipo de favoritismo no torneio. Era, na realidade, apenas mais um coadjuvante. Se existisse um mínimo de lógica, perderia na segunda ou na terceira rodada. Só que a segurança de um experiente e a rara habilidade na superfície de saibro se tornaram os grandes aliados do catarinense na arrebatadora campanha. E a lógica foi para o espaço.

Como um verdadeiro azarão, Guga foi ganhando confiança e moral com os passar das rodadas, sobretudo quando deixou pelo caminho dois tenistas dentro do top-10 do ranking: o austríaco Thomas Muster, que era o 5°, e o lendário russo Yegveny Kafelnikov, na época o 3° do mundo.

Posteriormente, o russo viria a se tornar um dos grandes rivais do já consolidado Gustavo Kuerten.

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Mas, naquele momento, o favoritismo era todo para o europeu no duelo de quartas de final. Guga, em entrevistas, admitiu que havia dado o jogo como perdido quando ficou em 2 sets a 1 em desvantagem. As forças não se sabe de onde vieram, mas o brasileiro reverteu o panorama, forçou um quinto set, inflamou o público, venceu e foi à semi do campeonato.

Depois de bater sem muitas dificuldades na semifinal o belga Filip Dewulf, Guga passou de coadjuvante, azarão, zebra e mais o que quer que seja, para, no mínimo, um adversário a ser respeitado. Com mais moral e muito mais atenção da mídia, ele pisou na quadra central de Roland Garros no dia 8 de junho de 1997 para fazer história. Ou melhor: iniciar uma história de amor com Paris que ainda teria mais dois maravilhosos capítulos.

A final e a surpresa

Pela frente estava o espanhol Sergi Bruguera, tenista tido como um especialista no piso de saibro. Poucos poderiam imaginar um jogo fácil, a menos que fosse para ele. Agora, apostar que Guga venceria por 3 sets a zero, ao natural, talvez nem Larri Passos, treinador e eterno parceiro do catarinense.

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Com uma atuação de luxo, soberana e superior, Gustavo Kuerten levou Bruguera à lona por 6/3 6/4 6/2 e faturou pela primeira vez na carreira o título de Roland Garros, chocando o mundo do tênis, que, antes do torneio, pouco o conhecia.

O “fenômeno Guga” surgiu de forma avassaladora no Brasil. Entre os brasileiros, o gosto pelo tênis era muito pequeno nos anos 90 por vários motivos, entre eles a falta de um grande ídolo. A própria Rede Globo, maior emissora de televisão do país, precisou enviar uma equipe de reportagem às pressas durante as fases finais do torneio para, digamos, “entender” o que estava acontecendo. Até hoje, nenhum outro tenista brasileiro conseguiu vencer um torneio nível Grand Slam na modalidade de simples.

Guga, após a conquista de 1997, viria a se tornar número 1 do mundo e ainda venceria mais duas vezes a disputa em Roland Garros, nos anos de 2000 e 2001. Se Paris até hoje é um pouco verde-amarela, não resta dúvida sobre o responsável.