De palavra em palavra surge uma frase. De frase em frase constrói-se um parágrafo. De parágrafo em parágrafo formula-se um texto.

De texto em texto determina-se um capítulo. De capítulo em capítulo escreve-se um livro. Simples assim? Claro que não!

Precisa-se de um prefácio, ou uma apresentação geralmente escrita por alguém que não o autor. Alguém que escreva uma síntese do que leu e o que isso lhe fez sentir. O prefácio é um texto mais ou menos curto colocado na introdução de uma obra, que apresente a obra a quem vai ler, portanto seu principal objetivo é preparar o leitor para a descoberta do livro, seus traços gerais, mas sem divulgar detalhes cruciais que fariam qualquer um ler apenas e simplesmente a introdução e perder-se-ia o desejo de terminar a leitura.

De certa forma, sempre quem escreve o prefácio adiciona muito de si, porque ao abordar aspectos relevantes, faz a partir do seu ponto de vista e não do autor.

Tem também aquela parte de agradecimentos e oferecimentos, que do meu ponto de vista, dispensável, mas o rigor acadêmico às vezes exige, ou até o próprio ego de quem escreve e de quem precisa ser agradecido. É melhor fazer ou corre-se o risco de arrumar, no mínimo, alguém que fale da ingratidão do autor, aí já viu...são tantos os egos hoje em dia, o mundo anda muito complicado e o ser humano cada vez mais carente, sempre precisando de um afago.

O sumário é de vital importância. É ele quem define na ordem das coisas, começo, meio e fim. Deve ser muito bem elaborado porque é a bússola para pessoas que gostam de ler de trás pra frente (eu sou assim de vez em quando) ou apenas alguns capítulos de interesse.

O sumário pode ser índice e exige muita paciência e tudo no mundo exige paciência. Acho meio contraditório, porque enquanto o mundo pede mais velocidade, sempre o ser humano pede paciência. Então, lembre-se que o índice é muito importante, portanto tenha paciência ao fazê-lo. É chamado também de índice remissivo que é melhor ainda para quem lê fragmentos, é o GPS.

Tem também as considerações finais, não obrigatórias, e como o nome já diz, ficará por último.

Posfácio, segundo o dicionário: s.m. Declaração final do autor ou de outrem, colocada no final do livro, ao contrário do prefácio, que é colocado no início. Você que leu isso percebeu a diferença na sua vida depois desta informação, como viveu até hoje sem saber? Mais uma vez, meu ponto de vista, dispensável. Sugiro que quem escreveu o prefácio, escreva o posfácio e nele coloque as guinadas da leitura, os pontos cruciais que não pode escrever no prefácio ou perderia a atenção do leitor. Não, deixe o posfácio de lado, depois volto a falar sobre ele.

Nunca, NUNCA, em hipótese alguma esqueça as referências bibliográficas. Nunca escreva algo que alguém já escreveu sem citar a fonte. Falta de rigor acadêmico, plágio, não, não pode é muito feio se apropriar das ideias dos outros!!!...Dai a Cesar o que é de Cesar, já escreveram na Bíblia.

O santo Google dos Nossos Dias Hipermodernos será o primeiro a castigar o autor, com a Lei da Sobrevivência e dos Direitos Autorais.

Considerações (quase) finais. Sim, você leu certo. Quase finais. Porque uma obra nunca está definitivamente acabada e nem o pensamento ou as considerações de hoje serão as de amanhã. Somos propensos e devemos estar abertos a mudanças no modo de agir, de pensar, de ponderar, de criticar e de principalmente, e ter ciência da nossa própria ignorante arrogância. Todo arrogante é ignorante, (mas nem todo ignorante é arrogante). Sábio é quem pergunta o que não sabe. Quem somos nós? Quais as condições da nossa existência humana?

Escrevi tudo isso meio como explicando “como se desconstrói” um livro. Mas não era nada disso que eu tinha em mente, acho.

Peguei um livro e fiquei observando, contemplando assim como alguém contempla o céu, o mar, uma obra de arte e percebi que somos como um livro (o eu estranho no espelho). Temos uma capa, que é como você vê já de cara (não me reconheço no espelho).

Temos um prefácio que é o que dizem sobre nós, superficialmente (minha imagem é profundamente rasa). Temos um sumário ou um índice que alguns já folhearam, leram alguns capítulos, participaram em outros, mas já nem fazem parte e não conhecem a obra inteira de uma vida porque ela ainda não acabou. Temos nossa referência bibliográfica que segue com rigor científico ou como um rio que desagua no mar, porque os deuses que nos livrem do santo Google que nos oprime.

Não temos posfácio. A preocupação é com a Consciência que nos deixa ou não dormir em paz o que na realidade são as nossas considerações quase finais. Ainda estamos em transformação, ainda estamos aprendendo e escrevendo. Mudamos de opinião, devemos nos permitir as contradições, abertos às novas ideias, às transformações do mundo, aceitando e respeitando aos outros e a pluralidade – ninguém é igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha existir. Nosso posfácio seria nosso Epitáfio, aqui jaz uma pessoa, um ser humano como qualquer outro e diferente de todos. Assim como a imagem que está parada no espelho, presa ao medo do estranho. Tenho muito receio daquilo que não muda, duvido do inerte.

Um livro é um documento e ele fala, você pode até não entendê-lo, não ouvi-lo, mas cada palavra proferida é a voz do outro em você. “É realmente necessário, para o contentamento do autor, que um livro seja compreendido, exceto por aquele ou aquela para quem ele foi composto? Afinal de contas, é indispensável que haja sido escrito para alguém”. (Charles Baudelaire) - a imagem do espelho escreve para ela mesma.

Objeto de contemplação:  A Condição Humana de Hannah Arendt. E de fragmentos que li escrevi este texto que com certeza, até você ler já terá mudado várias vezes e nem sempre para melhor. Hannah Arendt foi filósofa e pensadora política alemã e seu Doutorado foi sobre o conceito do AMOR em Santo Agostinho.

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