Desde que nascemos somos expostos aos sons ordenados em forma de #Música. Daquelas que cantam para nós quando ainda somos bebês, àquelas que somos forçados a ouvir, porque está sendo tocada em alto e bom som por nossos familiares ou vizinhos. Ao crescermos, novas músicas vão se agregando ao nosso acervo. De repente nos vemos com lembranças de músicas que nos remetem ao nosso passado longínquo e eliciam alguns sentimentos que satisfazem nossas saudades.

Mas ficamos cada vez mais impedidos de ouvir as músicas que fazem parte da trilha sonora de nossas vidas. A tecnologia vem evoluindo de tal forma que alguns registros, quando não se perdem, são "arquivados" de uma forma que perdemos o acesso a eles.

Para impedir que esses registros deixem de ser acessados, ou sequer conhecidos, felizmente aparece, aqui ou ali, um sujeito considerado meio doido por seus conhecidos. Esses sujeitos têm uma real noção da importância da conservação, resgate e divulgação das obras criadas em tempos de outrora.

Aqui no Brasil um dos pioneiros desse resgate foi o pernambucano Leon Barg, que se radicou no Paraná e resolveu regravar os discos de 78 RPM integrantes de um acervo que chegou a mais de 120 mil discos. Assim foi criada a gravadora Revivendo, marco nacional do resgate de gravações feitas na primeira metade do século XX aqui no Brasil. Leon faleceu em 2009, mas o trabalho da Revivendo continua.

Outra figurinha difícil de encontrar igual por aí é o idealista, radialista, pesquisador, colecionador e restaurador de aparelhos de rádio Indalécio Oliveira, no interior paulista, na cidade de São Carlos. Difícil por serem poucas as figurinhas dessa estirpe. Nascido e criado em uma geração que viu o nascimento e crescimento da informática e da Internet, Indalécio tem blogs para mostrar seu trabalho como restaurador em Officina do Rádio Antigo e para seu trabalho como radialista, onde mantém a Rádio Web Saudade, e no Em Algum Lugar do Passado (Tempo do Vovô), onde disponibiliza seus primorosos programas. Dono de outro grande acervo musical, Indalécio faz questão de divulgar obras, artistas e equipamentos do passado. Seus programas estão sempre no ar à disposição de qualquer internauta para conhecer, relembrar, valorizar e aprender, não só as músicas, mas também aspectos culturais da época em foram feitas.

Como a tecnologia facilita a guarda das gravações de hoje, devemos olhar com carinho e respeito o trabalho realizado por pessoas como Leon ou Indalécio, que guardam as de ontem. Devemos até mais que respeito, porque diletantismo não enche barriga nem paga as faturas no final do mês. Cadê o apoio a esse trabalho que preserva a cultura nacional? Por que tal esforço não é incentivado, nem recompensado, nem tampouco reconhecido? Cadê as Petrobrás e os bancos Itaús e Bradescos para patrocinar o trabalho dessas pessoas?

Leon se queixava que o governo federal sequer aliviou a carga tributária da importação de uma máquina para gravação e remasterização de seu acervo. O aparelho, inexistente no Brasil, foi pago de acordo com as exigências aduaneiras pelo empresário, para resgate do acervo cultural do povo brasileiro, demonstrando uma total falta de sensibilidade das autoridades com a memória nacional. Pena que quem possa ajudar não faça nada para facilitar tão importante trabalho. Sorte que existam pessoas como esses dois citados que, contra tudo e todos, seguem em frente como se não houvesse dificuldades no seu caminhar.