Com certa frequência encontrávamos nas ruas das grandes cidades do Nordeste duplas de emboladores. Armados com seus pandeiros, os artistas populares se desafiavam um ao outro, ou simplesmente se ajudavam, cantando os refrãos de suas cantorias improvisadas ou já prontas, divertindo o público que acabava dando uns trocados para os cantores. Hoje é mais difícil encontrar essa arte. De certa forma, a tecnologia e o progresso vão deixando mais fraco o contato do artista com o público das ruas.

Se antes tínhamos um tempinho para gastar entre um afazer e outro, parando na calçada da praça para ouvir o desafio musical, hoje estamos sempre com pressa, ou sem tempo para apreciar o que esteja sendo oferecido em termos de arte.

Publicidade
Publicidade

Sequer temos ouvidos para qualquer coisa que não seja nosso celular que está sempre à mão. Não desconectamos mais. E assim, sem público, sem ter a atenção devida, os emboladores vão pouco a pouco desistindo de exercer a difícil arte da improvisação.

Improviso não se aprende na escola. Não existem professores. É arte popular pura. Os teimosos artistas têm que se virar para viver. Em geral não são artistas fulltime, ou seja, eles apenas aproveitam um horário de suas jornadas de trabalho para garantir um ganho a mais ao salário no fim do mês, pois os ganhos com a arte do improviso não garante a sobrevivência. Todos eles insistem em jogar a sorte no destino para, quem sabe, conseguir a oportunidade de serem reconhecidos por um caça-talentos, e convidados para estrelar algum show. Pura ilusão, claro, mas que estimula o trabalho, afinal são artistas.

Publicidade

Mas, infelizmente, essa época de caça-talentos nas ruas já acabou. Se é que realmente existiu.

O que se desejava há algumas décadas era gravar um disco de vinil, ser reconhecido pela mídia, fazer show em um palco de verdade. Hoje em dia qualquer um pode gravar um disco. E não se vende mais CD, pois a mídia hoje é toda virtual. Nem as grandes gravadoras resistiram às mudanças, o que forçou o fechamento de muitas delas. Acabou-se a oportunidade de ser caçado nas ruas. Hoje o artista tem que fazer o seu próprio disco, produzir, gravar e vender diretamente ao público. Sejam os cantadores no improviso, sejam os amigos nas garagens, os grupos dos conservatórios ou faculdades, todos têm que fazer o que os artistas de rua fizeram sempre: mostrar a cara e o talento ao público, nas ruas, sem intermediário. As ruas de hoje são diferentes daquelas do passado. O público é diferente. A arte é diferente. Aquilo não chama mais atenção. O público de hoje quer algo menos empoeirado, mais sofisticado.

Publicidade

E, em consequência, os emboladores vão se extinguindo e desaparecendo. Os que ainda resistem, sofrem com o desapreço e perdem a esperança de, um dia, virarem super-stars.

Saudosistas lembrarão com muita alegria aquelas tiradas inteligentes, irônicas ou agressivas, mas sempre divertidas, saídas com rapidez das bocas dos artistas. Afinal de contas, não há quem evite o sorriso ao ouvir uma apresentação. Para os ouvintes do futuro ficarão as gravações. Guardemos com cuidado nossos arquivos. Essa gravação foi com os cantadores Pardal da Saudade e Topo Gígio, do interior de Pernambuco, nos estúdios da extinta Rádio Universitária AM da UFPE, em março de 2001. #Entretenimento #Música