Curiosas manifestações se apresentam em nossa sociedade que vai evoluindo aqui e regredindo ali. A mais nova 'sensação' oferecida pelos camelôs é o pau-de-selfie, ferramenta que serve para segurar o celular ou máquina de fotografia, e colocá-la bem longe do corpo para que a foto possa captar mais imagens ao redor do auto-fotógrafo.

É uma estratégia para tirar da imagem o braço esticado e melhorar o enquadramento da foto.

Porém o que chama a atenção em um mundo tão cheio de gente, de redes sociais e de interações é a dificuldade que as pessoas têm para conseguir um fotógrafo. Será tão difícil pedir e conseguir ajuda para um registro desses? Dia desses estava sozinho numa viagem de turismo e, de máquina em punho, fui fazer um registro, quando apareceram algumas pessoas que se ofereceram para tirar a foto com minha máquina.

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Gestos simples, que se agradecem com um "obrigado". Nem precisei pedir.

Sei que vai logo aparecer um ou outro afirmando que o pau é necessário para tirar a foto de todo mundo, os amigos, sem a exclusão do fotógrafo, mas até aí vale a pergunta anunciada antes: com tanta gente, será que não tem alguém que possa pedir o favor para quem esteja passando por ali?

Analisando o comportamento geral das pessoas, prefiro entender que o individualismo está tomando conta de todas elas. A começar pelo exibicionismo daqueles registros, que certamente têm que ser publicados de imediato em alguma rede social. Mas, para quê?

A solidão e a carência das pessoas as tornam vítimas dos "curtir", dos "compartilhar" ou "comentar" das redes sociais. É como se, sem essa troca de experiências, via mundo virtual, as pessoas não existissem.

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E o que parece mais preocupante é que as pessoas estão desaprendendo a viver no mundo real. É fácil interagir numa rede social virtual: envia um pedido, faz um comentário, curte... E as pessoas fazem isso com tanta facilidade. Por que então se manter tão afastados no mundo real, quando a gente consegue olhar o outro com o rosto em movimento, e não apenas em uma foto, escolhida a dedo, de um perfil em um mundo que não existe?

Não vejo a hora das notícias sobre o uso dos paus-de-selfie como armas começarem a aparecer. Não que eu queira isso. Mas certamente surgirão coisas do tipo: "Atacou o outro com o que tinha a mão", e era um desses instrumentos, porque estava com raiva, estava bêbado, e outras mais.

Acho que o tamanho do braço, que era a medida para afastar os outros, não serve mais de medida. Será necessária uma medida mais extensa para que nos sintamos seguros no meio de tanta gente que, em vez de nos acolher, nos repele, como nós fazemos também, em vez de acolher.

Estranho mundo. Que em breve será visto somente através das lentes de câmeras registradoras de imagens. De preferência, instaladas na ponta de um pau-de-selfie. #Moda