Quem abriu o show naquela noite foi o ótimo trombonista Boccato que dividia o palco com uma cantora de não mais de 25 anos, afinada, repertório eclético e banda de primeira. Apenas esse espetáculo já teria valido o ingresso. Ao final da apresentação, é anunciado. Logo que sai do camarim já se ouve sua voz a cantar "Sampa", de Caetano Veloso. A pergunta não cala: de onde o senhor de aparência frágil e andar lento tirou aquela voz?

Segue até o palco a locomover-se com dificuldade em meio à profusão de pessoas que interceptam o caminho para reverenciá-lo. Chega ao palco e canta "Sangrando", de Gonzaguinha, ("Quando eu soltar a minha voz, por favor ,entenda...").

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É como gravação de excelente qualidade. A voz límpida, cristalina e aquele timbre inconfundível preenchem todo o ambiente. Ninguém lembra mais dos artistas que o precederam. Tudo parece menor diante do canto de Cauby Peixoto. Não foi só a potência da voz que não mudou. Mantém as mesmas maneiras afetadas, os mesmos trejeitos de interpretação, as mesmas roupas exageradas e dedos cheios de anéis com que iniciou na Rádio Nacional, nos anos 50, quando era um dos maiores nomes da música brasileira, adorado e perseguido pelas fãs. Sempre fiel ao estilo que adquiriu no auge de sua carreira se tornou personagem de si mesmo. Nesses anos todos, modas se sucederam, o gosto popular sofreu mudanças várias, Cauby, porém, nunca abandonou sua personagem, bem como a forma sempre elegante e educadíssima de se relacionar com colegas e público.

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O show continua. Interpreta dois clássicos da Bossa Nova, "Chega de Saudade" e "O Barquinho". O irônico é que foi esse gênero o responsável por sua decadência no fim dos anos 50, início dos 60. De repente ter voz possante e interpretação arrebatadora ficou demodê Foi o fim de uma Era. E, com ela, sucumbiram outros artistas. Cauby não. Prosseguiu fiel a sua voz e ao seu estilo. Atravessou a má fase, inabalável como o fidalgo que sempre se esmerou em ser. Um dos últimos grandes representantes da Era do Rádio, período, entre as décadas de 30 e 50, que moldou o que hoje entendemos como música popular brasileira.

O auge do espetáculo é quando canta "Bastidores". O público o aplaude em pé. Foi essa música, composta por Chico Buarque, que o tirou do ostracismo. Melodia e letra permitem que o cantor explore sua extensão vocal ("Cantei, caaaaaaantei..."), além de ter passagens passionais de exagero proposital, perfeitamente adequado ao seu estilo ("Amaldiçoei o dia em que te conheci (...)", "(...) E os homens lá pedindo bis, bêbados e febris a se rasgar por mim").

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Devido a essa canção, Cauby superou um período difícil e tornou-se cult nos anos 1980.

Você pode ou não gostar do cantor Cauby Peixoto, do repertório dele ou de seu estilo extravagante. Não é isso que conta realmente. O importante é que ELE gosta e assim se faz feliz. Fez sempre o que quis e sem se deixar levar por críticas ou modismos foi leal a sua música, ao seu público fiel e, principalmente, a si próprio. Só assim pode construir uma história sem concessões que lhe custariam a alegria do ofício. E no fundo não é isso que pode fazer a trajetória de todos nós valer a pena, chegar à terceira fase da vida fazendo o que gosta sem ter de se explicar? Assim é Cauby Peixoto. Garboso, no auge de seus 83 anos, faz somente o que gosta.

Dessa forma, segue sempre em frente e responde ao tempo com voz de 33. (*Há cerca de 8 anos fui no dia dos namorados com minha então namorada ao Bar Brama, na esquina da Ipiranga com São João, assistir Cauby Peixoto. Alguns meses depois fui convidado a escrever algo para o periódico de uma Faculdade da Terceira Idade de uma Universidade de Santo André. Escrevi, então, sobre o show do Cauby que, afinal, estava também na terceira fase da vida. Creio que não chegou a ser publicado porque foi aquela fase de transição quando uma multinacional mercantilista da educação assumiu a instituição. Posteriormente fui informado que a crônica foi premiada na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto e será publicada em livro. Tirando uma alteração ou outra, como a idade, o texto acima é o mesmo do original. O subtítulo é uma alusão à canção "Resposta ao Tempo", de Aldir Blanc, consagrada na voz de Nana Caymmi, e que Cauby eventualmente também canta brilhantemente em seus espetáculos.