"Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país. No curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein". (Oscar Niemeyer, 1907-2012)

Em 23/06/2104, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha recebeu o jogo Brasil X Camarões. Todo reconstruído, irreconhecível para muitos e de beleza infinita. O Los Angeles Times já anunciara: "Beyond the World Cup stadiums, architecture in Brazil returns to glory" (Muito além dos estádios da Copa do Mundo, a arquitetura no Brasil retorna à glória). E nesse quesito o Mané fez bonito. E nosso jogadores também, afinal 4x1, foi um jogo bonito. Nas 'arquibancadas' gente bonita e feliz, tal qual o retrato das nossas desigualdades. Bem, Brasília é assim...monumental em tudo.

E como todos sabem o futebol acabou, o Brasil não foi Hexa, mas o Mané está lá, na cidade Monumento Patrimônio. Legado de uma Copa que apesar de todas controvérsias aconteceu. E a arquitetura brasileira volta a ser destaque internacional.

A cidade, o legado. Projeto dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, aos moldes de Le Corbusier, com forte convicção comunista, funcional e tem a estética como característica mais evidente. Foi inaugurada em 21 de abril de 1960, pelo então presidente Juscelino Kubitschek.

Corbusier defendia que "por lei, todos os edifícios deviam ser brancos", sem ornamentos, simples e com austeridade espartana. A maior crítica por conta disso é a monotonia. Pensando na transformação urbana por conta dos automóveis, deveria consistir em grandes blocos de apartamentos assentados em pilotis, deixando o terreno fluir debaixo da construção, o que formaria algo semelhante a parques de estacionamento. Le Corbusier para seus críticos foi um inimigo das cidades, principalmente dos homens, com suas "máquinas de morar" (vários prédios com essa concepção já foram demolidos, pois sua pseudo-funcionalidade não trouxe os benefícios prometidos). A jornalista Jane Jacobs fala muito sobre isso em seu livro de 1961, Morte e Vida de grandes cidades, em que defende a diversidade urbana, valorização de esquinas e percursos com quadras curtas, uso combinado e mais uma variedade de intervenções urbanas de posição antimodernista. Brasília seria assim, na concepção do livro de Jane Jacobs, a síntese do modernismo: monótona e sem vida, porém, uma maravilha de cenário se, não olhássemos os detalhes por trás dos prédios esculturas e das grandes avenidas que cruzam a cidade e que impossibilitam, quase, um simples atravessar de um homem a pé de um lado para outro.

Brasília, a cidade pensada igualitária e sem atritos de classe não aconteceu. A cultura humana incumbiu-se em colocar tudo dentro de uma hierarquia milenar que distingue as pessoas pelo poder aquisitivo. Os prédios construídos para abrigar patrões e empregados, logo mostraram sua des-funcionalidade com afluxo intenso de imigrantes o que tornou o projeto inviável em curto prazo e aconteceu o que acontece na maioria das cidades: centro elitizado e nas periferias, os pobres. O centro foi invadido pela ostentação, luxo, um verdadeiro latifúndio e nas periferias, um perfeito Faroeste (caboclo). Em Brasília tudo é monumental, até as desigualdades do eixo elite com o subúrbio candango.

Para Niemeyer, no alto de seus 104 anos (2012), "as ideias marxistas continuam perfeitas, os homens é que deveriam ser mais fraternos". O arquiteto também não se considera importante. Para ele, "a arquitetura é meu jeito de expressar meus ideais: ser simples, criar um mundo igualitário para todos, olhar as pessoas com otimismo. Eu não quero nada além da felicidade geral".

A cidade foi erguida no meio do cerrado com concepção modernista de urbanismo e arquitetura como projeto desenvolvimentista do Presidente JK no lema: "Cinquenta anos em cinco". Um dos objetivos da mudança da capital era levar o desenvolvimento ao interior do país e como uma das consequências - sem consenso; é de ter concentrado o poder político longe dos principais centros urbanos eliminando-se assim a capacidade do povo interagir com as questões políticas, coisa que acontecia no Rio de Janeiro, apesar dos grandes espaços destinados aos protestos e manifestações de toda ordem. Entretanto, quebrou-se aquela mentalidade colonial litorânea tirando do Rio de Janeiro a Capital do Brasil. A cidade já estava prevista na primeira Constituição Republicana de 1823 e o nome de Brasília foi sugerido por José Bonifácio.

No quadrilátero Cruls, em 1954, começa a ser cumprida a Constituição. A mil quilômetros de São Paulo e do Rio de Janeiro a proposta do governo era explorar as riquezas do planalto central com a transferência da capital para o cerrado goiano.

Hoje, 54 anos depois, vemos um cerrado devastado. A cidade planejada para seiscentos mil habitantes, completa mais de meio século com quase três milhões de habitantes, a 4ª população do país. Planejaram uma Capital, ganharam uma metrópole. O trânsito está saturado, as linhas de ônibus e metrô são insuficientes para atender a massa que se desloca das cidades-satélites (construídas "meio" que no improviso para transferência da classe operária) para o centro. A cidade não é para pedestres.

Brasília também virou palco de escândalos políticos. Na verdade, a cidade é um retrato mais nítido do que acontece Brasil afora. A população de Brasília veio de muitos cantos do Brasil, sem falar dos estrangeiros. Diversidade cultural e étnica. Dizem que o rock nacional começou lá, há quem conteste.

Hoje a cidade é rica e desigual. Amarga o 16º lugar no mundo e 4º lugar no Brasil em desigualdade (ONU/2010). 98.2% dos domicílios têm coleta de lixo; 95,4% com abastecimento de água e 100% com energia elétrica (IBGE/2008). Tem 3,37% de taxa de analfabetismo e renda per capita de R$ 50.438,46 (IBGE/2011). Isso sem falar da criminalidade que cresce assustadoramente nas cidades-satélites e amedronta o eixo elite.

Inconteste é a construção de Brasília ser um marco na História do Brasil. Assim como também o é a sua beleza arquitetônica e o Estádio Municipal de Brasília Mané Garrincha se junta com toda honra e glória a esse conjunto de prédios esculturas.

E, apesar de todas as controvérsias e contradições da cidade moderna, tudo... "Passa mais além do Céu de Brasília, Traço do arquiteto, Gosto tanto dela assim"... #Entretenimento