Sinopse do filme Depois da Vida - “Wandâfuru raifu / After Life, Japão, Drama, Hirozaku Koreeda, 1998. Em um ponto qualquer entre o céu e a terra, pessoas mortas recentemente são apresentadas aos seus guias. Durante os três dias seguintes, estarão escalados para ajudar os mortos a vasculhar suas memórias em busca de um momento determinado de suas vidas, uma boa lembrança, um marco em suas existências. O momento escolhido será recriado em um filme, que será uma espécie de lembrança que levarão consigo em sua passagem para o paraíso, única, imutável e eterna. Mas, além do choque dessas pessoas ao saberem que estão mortas, resta ainda uma tarefa difícil: escolher e eternizar o momento mais importante de suas vidas.

Publicidade
Publicidade

E todo o resto será apagado.

Obra de rara beleza e profundidade subjetiva. O choque da finitude e tarefa de resumir a uma única memória uma vida inteira.

O cenário do filme poderia ser uma das Cidades Invisíveis do livro de Ítalo Calvino. Imaginadas por Marco Polo e narradas de memória - fermentada e dilatada em sua fértil e fantástica imaginação - ao fascinado Imperador Kubla Kan que por não poder viajar, fazia com que Marco Polo lhe contasse suas aventuras com o objetivo de ampliar seus horizontes e ter em mente o mundo grandioso que existia no seu infindável domínio. Ora, a memória das viagens é construída de acordo com os interesses tanto de Marco Polo quanto de Kubla Kan.

No filme Depois da Vida, aqueles que precisam eternizar uma recordação, também são induzidos a essa construção. Santo Agostinho fazia uma análise das narrações: “Chego agora aos campos e às vastas zonas da memória, onde repousam os tesouros das inumeráveis imagens de toda a espécie de coisas introduzidas pelas percepções”. A isso, ele denominava “contar uma coisa de memória”, uma viagem pela mente, uma estratégia de olhar. Não se faz essa viagem fisicamente e sim pelo pensamento, interiorizando percepções, com o espírito em movimento, olhando sempre o novo, investigando e descortinando o aqui e o ali. Talvez essas percepções sejam inerentes ao viajante, porque ao morador tudo está inserido no seu costumeiro e ele não sente o efêmero, seguindo como um cativo de seus hábitos ou de seus interesses. A memória é uma floresta e você constrói os atalhos para seguir seu caminho.

Na pós-modernidade a busca pela verdade é uma constante como também, a sua contradição, de que nada é verdade. Existem verdades distintas e discursos distintos. Um movimento centrífugo e centrípeto, uma estratégia de olhar distanciado e olhar aproximado. Parece que estamos suspensos no vazio, porém agrupados em memórias, lembranças, desejos, símbolos, trocas, olhares, continuidade, descontinuidade, mortos, vivos, céu, inferno e ocultações. Num delírio que extrapola a lógica e rompe o discurso fantástico de uma rede de signos que ora, renova, ora subverte fatos, abandonando o consciente e navegando no inconsciente. Dizemos adeus à imutabilidade e aos pensamentos cristalizados e não nos deixamos levar mais pela lógica e sim pelo sensitivo, numa linha reta, mas sem a percepção de quem está dentro ou quem está fora, sendo que muitas vezes, nem percebemos que já passamos.

No filme Depois da Vida temos uma única lembrança para guardar para a eternidade, isso me remete ao totalitarismo. Morrer e viver a eternidade numa imagem.

No livro Cidades Invisíveis uma nutre a outra, explorando o mundo em espelhos, mundos ficcionais, ilusórios, partes perfeitas que se unem a um todo, sem ser totalitário. São inúmeras mulheres as cidades. Todas fortes, bem constituídas, labirínticas, matruskas frágeis dissimuladas e ocultas.

Se no filme você só tem uma opção, no livro você tem várias. Marco Polo caminha de uma para outra construindo sua narrativa ficcional atendendo a seus interesses e aos interesses de Kubla Kan. Em algumas ele ficou mais tempo percorrendo seus labirintos. Noutras deixou saudades. Noutras tem passagem livre e hospedagem garantida. Em algumas, simplesmente não pode voltar. Noutras sequer deixou memória. Outras sequer existiram. Contudo, todas trazem em si um germe de prosperidade e destruição.

De modo que tanto no filme, quanto no livro, há a perspectiva de uma fenda que cada infeliz contém uma felicidade que nem mesmo sabe que existe. Todo princípio negativo é portador de um princípio positivo que a qualquer momento pode revelar-se. Cada porta abre um mundo utópico, uma revelação quando estamos atentos. É um olhar que não é ver, é sentir, é emergir. É essa a ambiguidade humana: depende da percepção do olhar ao debruçarmos sobre a História que nos apresentam como sendo uma construção espetacular e que oculta a simplicidade, as pequenas coisas que constituem a rede que faz movimentar a grande roda da História. Depois da vida quem irá nos julgar?

"Memória demais pode nos matar, para não mencionar nosso senso de humor, mas somos incapazes de abandonar nossa memória" - Leonidas Donskis

#Entretenimento #Cinema