"Novamente o tempo conspira entre causos e principalmente indecisões. E diante da provável impressão de atraso, o alívio de ver o espetáculo em formação é reconfortante, seguido de um leve caçoamento do tempo pela pegadinha de mal gosto. Atrasos, exceto por situações incontroláveis, nunca deveriam ser levados de forma leviana. Felizmente, todas estas questões são deixadas de lado quando as cortinas começam a se abrir, as luzes se apagam, e a luz em pilar ilumina o caminho da atriz prestes a pregar outra pegadinha, esta prazerosamente aceitável."

Fragmentos do Real foi a última peça no mês de Março na 2º Mostra de Verão OST, que se encerra no dia 13 de Abril com "Uma Noite Pestilenta em Porcelana da China!".

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Assim como os espetáculos anteriores, foi realizado no teatro Eduardo Kraichete em Niterói, e ao contrário das peças anteriores, o público era restrito aos maiores de 18 anos, o que de forma alguma tirou o brilho e a densidade do que foi o espetáculo.

Dirigido por Alécio Abdon, o espetáculo brincou com as percepções do público quanto a realidade, e com as próprias percepções do que é o teatro, fazendo bom uso da liberdade que a faixa etária restrita permite. E como seria visto ao longo da peça, realidade, sonho e ficção se misturaram em níveis desafiadores aos olhos dos espectadores.

"Você Nunca Sabe o Que Está por Vir..."

"Não é difícil se perder no emaranhado da realidade fictícia e onírica do espetáculo. Entre alucinações e pensamentos profanos, os conflitos de uma mente se apresentam de forma caótica, em que apenas um exercício desafiador para juntar os fragmentos que dão nome ao espetáculo façam sentido.

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E quando fazem, o próximo passo é compreender a própria mentalidade..."

De todos os espetáculos na Mostra até aqui, Fragmentos do Real é a mais próxima de películas cinematográficas. Mais especificamente, das obras de David Lynch e sobretudo Ingmar Bergman. Filmes como "O Silêncio" e "Fanny e Alexander" são algumas das referências, que felizmente se encerram aqui. O espetáculo não tenta de forma alguma emular a sétima arte, mas se inspira de forma exemplar.

Os melhores exemplos a se atestar estas provas são as brincadeiras com a quarta parede, que entre uma suposta desistência da atriz principal e um falso diretor, até a própria ideia da trama sobre os preparativos de um espetáculo; e o jogo de iluminação feito em todas as cenas, que aqui encontrou seu ápice, maior até que Cidade das Donzelas. A cena do pesadelo de Ester, uma das personagens centrais, é perturbadora. E sua ópera, com as luzes formando bandeira da França em suas costas, trazem os ideais revolucionários da época ao palco.

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Mas em uma trama que claramente deixa seus espectadores confusos em vários momentos, qual o real cerne de Fragmentos do Real?

A Vida.. e a Morte

"A morte, por mais dolorosa que seja, é um mistério cuja revelação é destinada unicamente para quem já se foi desta vida. Aos vivos, cabe apenas as especulações sobre o fim deste ciclo, vivendo da melhor forma que puder. Talvez por esta razão, quando a morte é iminente, o sentimento de desespero, alívio ou tristeza chegam de forma impensada, como aspectos de um ponto da vida onde verdadeiramente não se há controle."

Fragmentos do Real não teve medo em momento algum de mostrar temas fortes como a insanidade, a ganância, e mesmo temas mais delicados como o incesto. E ao final do espetáculo, após uma série de flashes do que poderia ser a morte, fica os questionamentos sobre como devemos de fato encarar a vida. Tal como uma frase que circula de várias formas na internet:

"Todo ser humano passa por conflitos que não estão estampados em seu rosto. Portanto, seja solidário, pois assim como eles estão nesta luta, você também está". #Entretenimento #Rio Cultura