Decorridos exatos 950 anos, desde o Grande Cisma ou Cisma do Oriente, ocorrido no ano 1054 da Era Cristã, a #Igreja Católica busca reaproximar-se da Ortodoxa, a partir de uma declaração conjunta celebrada no último dia de novembro entre o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla, com o objetivo de abrir um diálogo para uma relação mais próxima entre as duas igrejas. Entretanto, segundo alguns historiadores e teólogos, essa reaproximação entre as duas maiores igrejas cristãs do mundo seria mais simbólica do que real, tendo em vista os séculos de distanciamento que as separam, as divergentes concepções nas representações da fé e, sobretudo, as disputas de poder político e supremacia mundial existente entre elas.

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Desde o papado de Paulo VI que a Igreja de Roma vem tentando reaproximar-se do Patriarcado ortodoxo, mas tais tentativas foram meramente protocolares e consideradas um gesto de boa vontade, como aconteceu com o pedido de perdão à comunidade judaica, feito pelo Papado. Embora os motivos de natureza teológica que deram origem à separação já não existam, permanece viva a questão da supremacia espiritual e política sobre os cristãos do mundo inteiro.

Como tudo começou

Para que se tenha uma ideia das origens históricas do Cisma do Oriente (1054), é necessário que se recorra a um salto de volta ao passado, o que remete à divisão do Império Romano em Ocidental e Oriental, estabelecida pelo Imperador Teodósio, em fins do século IV. A capital do Império do Oriente foi localizada em Constantinopla, cidade recém-construída pelo seu antecessor Constantino no local da antiga colônia grega de Bizâncio.

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Devido a um conjunto de fatores, dos quais destacam-se as chamadas invasões bárbaras na parte ocidental do Império, Roma foi aos poucos perdendo importância econômica, política e cultural para Constantinopla - a 'Nova Roma' - que, no século VII, tornou-se definitivamente dominante, tornando o antigo Império Romano do Oriente em Império Bizantino, de características marcadamente gregas e asiáticas, o que não poderia deixar de influenciar a natureza do Cristianismo praticado na região.

Divergências

Já no século VIII, havia profundas divergências entre os cristianismos praticados no Ocidente e no Oriente: enquanto este preocupava-se mais com o monarquismo e controvérsias religiosas, aquele cuidava da organização da Igreja e da conversão dos pagãos. Além disso, na Igreja bizantina o grego veio a substituir o latim na liturgia das missas, a instituição eclesiástica era subordinada ao Estado, havia diversidade de interpretação em questões teológicas, como sobre a origem do Espírito Santo e à existência do Purgatório, rejeitado pelos orientais.

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A Questão Iconoclasta, ocorrida neste mesmo século, marca o auge dessas contendas, envolvendo de um lado Leão III, governante (Basileus) de origem asiática, que, a pretexto de combater o paganismo, ordenou a destruição das imagens sagradas, contrariando o clero, que as fabricavam nos numerosos mosteiros, que, em represália tiveram suas terras confiscadas pelo Estado. O Papado de Roma tomou as dores dos padres e aprofundou as divergências com o Império e a Igreja de Bizâncio, o que se traduzia principalmente na questão política sobre quem exerceria de fato e de direito a supremacia sobre os cristãos. Esse episódio culminou em 1054, quando se verificou o Cisma do Oriente - a separação entre as Igrejas de Roma, então chefiada pelo Papa Leão IX, e a Ortodoxa, liderada por Miguel Cerulário, Patriarca de Constantinopla.

Diálogo

Decorridos tantos séculos, as duas Igrejas criaram cada uma delas sólidas estruturas institucionais e profundamente hierarquizadas, o que, segundo especialistas, torna extremamente difícil um realinhamento e quase que totalmente improvável uma reunificação. Ainda assim, o diálogo entre as duas lideranças eclesiásticas é visto como muito importante no contexto político atual, haja vista o papel de intermediação que a religião pode desenvolver em áreas conflagradas do mundo. #História