NENHUM MENINO PODE CHAMAR-SE COMO EU…

Aqueles garotos que no recreio da escola caçoam dos outros e organizam pequenas gangs que espalham o terror entre os balanços, não têm prazer de se divertir nos balanços. Aqueles garotos que estragam as brincadeiras, pisam nas construções e derrubam os legos, são incapazes de construir um puzzle. Aqueles garotos que se focam em levar os outros às lágrimas caçoando das suas roupas, são incapazes de se concentrar na alegria e no trabalho em grupo e na pequena ou grande vitória coletiva. Aqueles garotos dos quais todos têm medo, são amedrontados, precisam de um bando de garotos tão amedrontados como eles para espalharem o medo junto dos que brincam.

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Esses garotos geram infelicidade e são infelizes; não sabem, mas são. Muito.

Esses garotos já têm o destino traçado; são há muitos anos aproveitados para vigiarem os colegas nas provas, para delatarem vizinhos na polícia, para serem capatazes ferozes, espiões eficazes e, se subirem bastante na carreira, para serem ditadores famosos, com cordinhas nos braços e nas pernas movimentados por outros meninos mais sofisticados, que já no recreio da escola davam menos nas vistas, mas que na verdade controlavam todas as trocas de figurinhas e de bolinhas de gude.

O menino Kim Jong-un, no recreio da escola da Coreia do Norte, é um desses garotos. Tem na caderneta escolar um currículo que inclui fazer desaparecer colegas, atiçar cães selvagens em meninos de outra turma, organizar grandes reuniões para mandar nos outros, proibir qualquer contato de sua escola com outras, e até parece que acabou - mandou acabar - com uma coleguinha de classe em quem deu uns beijinhos só porque ela, no recreio, quis brincar com outros meninos.

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O pai de Kim era o ex-diretor da escola e claro que as fotos nos corredores não são das diferentes turmas com os alunos abraçados fazendo palhaçadas para as câmaras, não. Todas as fotos são de Kim. E todos parecem gostar muito dele. Os que não gostam vão para outras salas, e por acaso nunca mais ninguém os vê no recreio, porque estão de castigo.

Kim deu sem dúvida uma outra dimensão à palavra bullying.

A notícia é que ninguém pode chamar-se como ele… !!!

Todos os Kim Jong-un foram convidados a mudarem voluntariamente de nome e nós sabemos como Kim é persuasivo.

Acontece que, ainda por cima, parece que na Coreia do Norte, o nome Kim é assim raro como Silva no Brasil, entre nós, pelo que se calcula que tenham sido aos milhares os meninos que viram os seus nomes alterados na lista de chamada.

Esse garoto, ao tomar essa medida, foi o mais consistente de todos os garotos que são ou foram como ele: negar o nome é negar a identidade, o querer, o respeito, o sorriso único de cada um… é negar a vida que para nós sonhou quem nos escolheu o nome; por isso está certo.

Inacreditável. Mas coerente. #Educação