Tendo sido amplamente divulgado, a revista francesa satírica Charlie Hebdo foi alvo de um ataque por um grupo radical islâmico na semana passada, perdendo oito de seus membros mortos a tiros. O grupo que praticou o atentado declarou que o mesmo havia sido feito devido à uma capa da revista com a imagem do profeta Maomé. Quaisquer reproduções do Profeta constituem sacrilégio, segundo os muçulmanos. Esse atentado gerou uma comoção mundial, com diversas pessoas reproduzindo a frase que acabou tornando-se símbolo da luta pela liberdade de imprensa : Je suis Charlie (Eu sou Charlie).

Embora de certa forma imprevisível, esse não foi o primeiro ataque feito à Charlie Hebdo pelo mesmo motivo.

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Já em 2011 a revista havia feito uma representação do Profeta Maomé em sua capa, convidando-o para que fizesse parte de sua redação. Essa atitude resultou em um ataque à bomba aos escritórios da revista. O então diretor da Hebdo, Stephanne Charbonnier, conhecido como Charb e que desde esse episódio andava com um guarda-costas, alegou que o atentado foi feito "por idiotas que estavam traindo sua própria #Religião."

Em 2012, a revista publicou novamente uma representação do Profeta Maomé, dessa vez em forma de caricaturas. Na ocasião, Stephanne alegou que "preferiria morrer em pé do que viver de joelhos."

E foi o que aconteceu: Stephanne Charbonnier, 47, foi uma entre as oito vítimas executadas na semana passada.

Não obstante toda essa tragédia, a revista ousa mais uma vez. A nova capa mostra novamente uma imagem do Profeta Maomé, dessa vez vestido de túnica e turbante, com uma lágrima no rosto, segurando um cartaz com os dizeres: Je suis Charlie.

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Logo acima da cabeça do Profeta, vê-se a frase: "Tout est Pardonné" (Tudo está perdoado).

Ousadia, ironia e ambiguidade

A revelação da nova capa da Charlie Hebdo com a representação do Profeta Maomé mostra ousadia, pois foi justamente por conter uma imagem do mesmo na tiragem anterior que sua redação sofreu o atentado que culminou em oito mortes, sem mencionar as outras ocorridas na ocasião, pelo mesmo motivo.

Afinal, qual a finalidade dessa capa? Qual seria o significado dela? Estaria Charlie perdoando o Profeta ou o Profeta perdoando Charlie?

O cartunista Luz, criador da capa controversa, não queria explicar seu significado, porém, após a insistência da repórter Isabelle Hanne, do JORNAL Libération, a quem Luz concedeu entrevista, resolveu finalmente revelar sua obra: "Com essa capa, queríamos mostrar que a qualquer momento temos o direito de fazer qualquer coisa, refazer qualquer coisa e usar nossos personagens do modo como quisermos. Maomé tornou-se um personagem, a despeito de si mesmo, um personagem nos noticiários, porque há pessoas que falam em seu nome.

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Essa capa é direcionada para pessoas inteligentes, que são muito mais numerosas do que você pensa, sejam elas ateias, católicas, muçulmanas...

Luz também explicou como se deu o processo de criação da capa: O primeiro desenho que fez - que ele descreveu como uma catarse emocional após ver os corpos de seus amigos mortos - foi o de mostrar os glúteos de seus amigos mortos com os dizeres: "Liberdade de expressão, uma ova!". Outra ideia que Luz teve foi a de mostrar os terroristas chegando no paraíso, e, ao pedirem por suas 70 virgens, ouviriam a resposta: "Elas estão com o time da Charlie, perdedores!". Pensou até mesmo em colocar os retratos dos cartunistas mortos no atentado com a frase provocante: Nós somos Deus.

Quando ele finalmente chegou ao desenho final, achou-o engraçado. Ele disse que superarão as perdas. Quando Luz mostrou o desenho final a outros dois colegas de trabalho, os três choraram. Luz finalizou dizendo "Nós a temos, uma capa que se parece conosco, e não se parece com mais ninguém ou com os símbolos que nos impuseram ao longo dos últimos dias. Não uma capa com buracos de balas, mas apenas uma capa que nos faz rir. #Terrorismo