O primeiro ministro Narendra Modi condenou nesta quinta-feira (22) a terrível diminuição no número de meninas no país, lançando uma campanha para solucionar o problema o qual, segundo as Nações Unidas, é um caso de emergência nacional.

"As meninas são normalmente assassinadas ainda no ventre de suas mães aqui em nossa vizinhança e nós nem sequer sentimos dor por isso", disse o primeiro ministro em um discurso realizado no estado de Haryana, um dos locais onde assassinatos de meninas, crimes de honra e estórias dignas do século XV ainda são algo corriqueiro. "Nós não temos o direito de matar nossas filhas!", disse o primeiro ministro.

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Apesar de ser proibido no país, o aborto seletivo é um crescente problema, que resulta em um constante declínio no número de meninas nascidas, ainda que a economia do país e outros indicadores sociais, como mortalidade materna, tenham melhorado.

A campanha lançada pelo primeiro ministro chama-se Save the Daughter, Teach the Daughter ("Salve uma filha, ensine uma filha") e tem como objetivo aumentar o número de meninas nascidas bem como trazer igualdade entre os sexos por meio do acesso à educação.

Um estudo publicado pelo jornal britânico Lancet estima que mais de 12 milhões de meninas indianas foram abortadas entre os anos de 1980 e 2010.

Motivo do aborto seletivo

Não há nada que justifique a atrocidade em questão, mas conhecendo a sociedade indiana, começamos a entender o que pode se passar na mente dos pais quando uma menina nasce. Para começar, a Índia é uma sociedade profundamente patriarcal em que as filhas são vistas apenas como uma obrigação financeira, uma boca a mais para ser alimentada. Este fato, claro, é mais evidente nas zonas rurais do país.

Na Índia, ainda que proibido, o dote ainda é amplamente praticado e é dado à família do noivo. Há exceções, mas a família do noivo espera que a quantia seja, no mínimo, bem alta. Na zona rural, isso inclui o número de lotes de terra e cabeças de animais que a família da noiva possui. Ou seja: Para os pais, ter uma menina é estar sempre em prejuízo. 


Além disso, ao se casar, ela passa a ser exclusivamente da família do noivo e não mais da sua. Ela também ganhará um novo sobrenome e não carregará o sobrenome de sua família, na maioria dos casos. Ou seja: um verdadeiro fardo para sua família! Toda esta degradante situação tem feito aumentar ainda mais crimes como estupro, tráfico sexual e a humilhante prática do compartilhamento de uma mesma esposa por vários homens da mesma família.

O problema é tão sério que nem a capital Delhi escapou dele: Estima-se que há 871 meninas para cada 1000 meninos. Vale lembrar que Delhi faz fronteira com Haryana e outros estados onde a prática do feticídio e outras atrocidades ainda é comum.

Questões levantadas pelo primeiro ministro Narendra Modi

Em seu discurso, Modi criticou os médicos do país, indagando se não se sentiam culpados por dar fim a uma vida em vez de salvá-la, que é a verdadeira função de um médico.

Durante seu discurso, Modi implorou aos ouvintes que salvassem essas vidas fazendo um voto para combater o feticídio feminino e que passassem a celebrar o nascimento delas e que soubessem administrá-las, oferecendo-lhes educação de qualidade. Modi também lamentou o fato de que muitos pais rejeitassem ou não dessem devido valor às suas filhas, já que um dia elas iriam embora da casa deles para fazer parte de outra família.

É costume na Índia achar que filhos do sexo masculino valem mais, já que seria deles a responsabilidade de cuidar dos pais quando estes atingissem a terceira idade. Porém, Modi rejeitou este antigo pensamento indiano, dizendo que, se fosse verdade, não existiriam abrigos para idosos no país. Segundo ele, muitos destes filhos estão abastados, possuem carros e mansões, mas os pais continuam em asilos. E, terminou com a ousada declaração: "Por outro lado, há filhas que dão duro no trabalho para ver seus pais felizes. Se nós dermos a chance, elas podem ir muito mais longe que os meninos!

Alguém duvida?