Quanto vale uma vida? Que valem mais: 12 vidas ou 2.000? Vale mais a vida, ou quem a tinha e perdeu? Perguntinhas chatas essas, não é verdade? Mas se elas não são para serem respondidas, podem servir de base para um bom debate. Tudo começado (ou continuado) com o estúpido ataque à redação do semanário francês que acarretou a morte de seus principais jornalistas, numa alegada vingança à profanação do nome de Maomé.

Acredito que poucas pessoas concordam com o ataque, apesar de elas existirem, afinal houve que cometesse a violência. Porém, a comoção maior começa depois que a poeira baixa e o sangue derramado coagula.

Enquanto no norte de África, o Boko Harum invade cidades inteiras, matando milhares de pessoas e colocando as populações sob ameaça e a gente nem se incomoda com isso, todos falam sobre quem está passando dos limites no caso de Paris.

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Por todo o mundo, via mídia ou redes sociais, as pessoas começaram a se digladiar com palavras e ideias por causa das possíveis causas que levaram os terroristas a agirem daquela forma. A virulência com que os profissionais do Charlie Hebdo tratavam suas matérias é a grande vilã do caso.

  • A liberdade de expressão, dizem uns, tem limites que devem ser respeitados.
  • Se a expressão tem limites, não é liberdade, dizem outros.

Na matéria Somos hipócritas, a autora se solidariza com a expressão da ideia mesmo que não concorde com o que essa ideia expressa. Já o autor da matéria sobre Gustavo Santos abre o verbo contra a expressão de idéias com as quais não concorda. Pelo texto, intui-se que o missivista não gosta muito do Gustavo. Coisas pessoais. Aproveitou o ensejo para soltar sua insatisfação.

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Esses são apenas dois exemplos do bate-boca estimulado pelo ataque terrorista na França. Nessa matéria a autora declara receio em usar a liberdade. Nesta outra o autor a defende com todas as letras. Há milhares de outros casos por aí. Debates publicados nos jornais ou Internet, ou simplesmente realizados nas ruas, dentro das casas, nos corredores e salas de aula ou do escritório de trabalho, eles têm o poder de nos cobrar uma posição: você é contra ou a favor, e do quê? Essa perguntinha é para ser respondida.

Deixemos as charges e Maomé, e detenhamo-nos no conflito das idéias. Isso não é ruim. Pelo contrário, é o que nos faz ser civilizados, inteligentes. O que não podemos fazer é usar a violência contra aquilo que nos causa desgosto, aborrecimento e raiva. Não podemos destruir em nome de nossa intransigência. E essa só será superada quando houver liberdade de agir sem medo de represálias estúpidas como as que ocorreram. Não podemos nos acanhar e nos deter por causa de pessoas que não têm capacidade para viver em sociedade.

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A violência não é arma para ser usada. Nem na educação, nem na punição. A vingança menos ainda. Se alguém errou - e errou feio - foram os que não souberam interpretar textos religiosos. Certamente Maomé se envergonha de tamanhas asneiras que fazem em "seu nome". Seja em Paris, na França, seja em Baga, na Nigéria.

Nós temos que lutar com nossas palavras, lápis e papel para sermos livres, e não para darmos chance a sentimentos de ofensas por quem não sabe o que faz.  

Acho que precisamos tanto de religião, quanto de humor. Mas precisamos mais ainda de liberdade. De liberdade de expressão, principalmente, para poder dizer que amamos este ou aquele deus, ou que os detestamos, sem que isso nos leve à inquisição.

Acho que a Idade Média já acabou, mas posso estar redondamente enganado. #Terrorismo