A disputa pela soberania das Ilhas Malvinas (para os argentinos) ou Falklands (para os ingleses) ainda estremece a relação entre a Argentina e a Inglaterra. Na última semana, um questionamento feito pelo chanceler argentino Hector Timerman sobre a "Questão Argentina" referente às ilhas gerou uma fervorosa e contundente resposta do primeiro ministro britânico David Cameron, que defendeu o direito dos moradores locais de permanecerem vinculados ao Reino Unido, como decidiram em um plebiscito há dois anos. A resposta de Cameron foi duramente criticada pela presidente da Argentina Cristina Kirchner, que considerou o tom do britânico como agressivo e desrespeitoso.

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Cameron e Timerman participavam de um evento em Bruxelas, capital da Bélgica, do qual participavam também diversos outros líderes de estado, como a presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Assim como Dilma, outros presidentes preferiram não interferir na discussão, tratando de mudar imediatamente a pauta naquele momento do evento. Desde o século XIX, o território das Ilhas Malvinas/Falklands é disputado por argentinos e britânicos. Em 1982, o conflito se agravou e chegou a um enfrentamento entre os exércitos. Para Célio Tasinafo, diretor pedagógico do Colégio e Curso Oficina do Estudante, a reivindicação histórica da Argentina é legítima, assim como a reivindicação dos ingleses, pois ambos realizam uma seleção histórica dos fatos.

"A exigência dos argentinos para devolução das ilhas se embasa no argumento que o território se localiza próximo à Patagônia e foi tomado pelos ingleses no século XIX por interesses comerciais.

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Já para os britânicos a ocupação não fere a soberania Argentina, pois durante o século XIX o território foi ocupado por franceses e espanhóis sem a oposição efetiva dos argentinos; além desse argumento, os britânicos apresentam o resultado de um plebiscito realizado em 2013 que apontou mais de 99% da população local a favor da manutenção do território sob domínio dos britânicos", afirma.

"Contudo, os reais interesses na pequena ilha com cerca de três mil habitantes se deve principalmente ao grande potencial petrolífero da região, os dois países disputam o território com clara finalidade econômica, além disso, Argentina e Inglaterra tentam reafirmar ideais nacionalistas de soberania. Assim, a reivindicação dos argentinos é legítima, porém há uma seletividade histórica na argumentação do país platino", conclui Tasinafo.

Escolha dos moradores

Como já foi citado, em 2013 a maioria esmagadora da população das Ilhas escolheu em plebiscito por continuar sob soberania do Reino Unido.

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O professor de história Felipe Melo, também do Curso e Colégio Oficina do Estudante, avalia a decisão tão enfática dos moradores. "A preferência dos habitantes locais em continuar pertencendo ao Reino Unido se deve em primeiro lugar pela origem da população, em grande parte descendentes de ingleses e escoceses. Ou seja, os kelpers (cidadãos das Falklands) não se sentem pertencentes à cultura argentina, não há nenhum laço de identidade entre a população local e a Argentina, levando em consideração a presença inglesa há 180 anos", diz.

"Outro aspecto que leva os moradores da ilha a optarem em pertencer ao Reino Unido é a estabilidade econômica, o local tem uma renda per capita de US$ 55.400 e um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,874, o 20º maior do mundo. A incerteza sobre a manutenção desses índices, caso a Argentina vencesse o plebiscito, e a origem da população local são os aspectos que mostram porque os moradores da ilha não optaram por mudanças", explica Mello.

Novo conflito?

Ainda sobre o desentendimento ocorrido em Bruxelas, em um dos momentos mais tensos da discussão, o primeiro ministro britânico David Cameron chegou a acusar o tom do chanceler argentino Hector Timerman de "ameaçador", gerando certa apreensão entre os presentes. Para Felipe Mello, um novo conflito entre os dois países não é possível, pelo menos para os próximos meses. "A Argentina vive um processo econômico de instabilidade, alguns organismos independentes apontam uma inflação anual de 20% e uma grande desvalorização cambial; já os ingleses passam por um momento de austeridade econômica, com a finalidade de retomar o ritmo de crescimento, no final de 2014 a economia do Reino Unido cresceu 3%.", afirma.

"Assim, seria inviável economicamente para Inglaterra e Argentina iniciarem um conflito. Um possível prognóstico é a manutenção das tensões diplomáticas entre o Reino Unido e a Inglaterra, o pior cenário é um improvável rompimento econômico e diplomático entre os países, contudo o mais provável é que a situação não se modifique", garante o professor. #Europa