"Não"! Palavra usada para expressar uma negação ou mesmo recusa. E quando nos referimos ao contexto político-econômico das turbulentas negociações nos últimos dias da União Européia com um dos seus membros, a Grécia, esta palavra, assume uma dimensão muito maior do que uma simples negativa. Aliás, por duas vezes historicamente falando, a nação helênica, proferiu o "não".

A primeira foi em 1940, quando o ditador facista italiano, Benito Mussolini, deu um ultimato aos gregos, impondo que eles se rendessem em 3 horas e a resposta grega veio na forma de um sonoro não, onde disseram: "NÃO, você não vai passar. NÃO vai profanar o sagrado solo que herdamos dos nossos antepassados", o que veio depois, são conseqüências da 2.ª Guerra Mundial.

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Entretanto, o que interessa mesmo, foi o segundo não grego dado nas urnas no referendo de 05/07 último, em que a Grécia disse não as imposições econômicas exorbitantes de seus credores mundiais.

Uma representante brasileira teve participação decisiva na auditoria da veracidade ou não da dívida grega e essa pessoa é Maria Lúcia Fattorelli, auditora da Receita Federal desde 1982 e coordenadora do movimento "Auditoria Cidadã da Dívida". Maria foi convidada por Zoe Konstantopoulou, deputada do Syriza que ocupa a presidência do Parlamento Grego a permanecer sete semanas em Atenas com mais 35 especialistas que formaram a comissão de auditoria da dívida grega. A conclusão desta equipe econômica foi de que existia um esquema enraizado e muito bem articulado pelas potências européias e bancos privados para se desviar recursos públicos para o sistema financeiro das grandes instituições econômicas.

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Sim, a frase de Maria Lúcia de que "a Grécia foi usada para maquiar um grande plano de salvação dos bancos privados", faz total sentido.

Se a dívida grega é em grande parte uma fraude, talvez a maior parte dela não deva ser paga, foi outra conclusão que chegou o grupo de auditores. Foram comprovadas inúmeras arbitrariedades contra a Grécia, como: a indevida inclusão de papéis, títulos e falsificação de números, fazendo a dívida grega ser de 271 bilhões de euros ou 177% do PIB do país. Descobriu-se ainda que o FMI, BCE e a Comissão Européia em 2010, usaram de medidas irregulares com a desculpa de preservar o equilíbrio econômico da Europa nos seus primeiros acordos com a Grécia. Isto é, se livraram dos papéis podres que enchiam os bancos privados europeus, ou seja, um auxílio às instituições na transferência de "ativos venenosos" para os países europeus mais pobres. Já de início, constatou-se que 50 bilhões de euros eram irregulares na dívida grega.

Maria Lúcia, revelou a criação nefasta de uma tal empresa de Facilidade para Estabilidade Financeira Europeia (EFSF), em Luxemburgo, como sendo uma tramóia para se extrair a crise da iniciativa privada.

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Enfim, essa empresa tornou possível os empréstimos para países a partir de "instrumentos financeiros" e não de dinheiro, que era o que realmente o Estado grego precisava e a Grécia em 2012, engoliu a isca, assinando um contrato com esta empresa.

O que acontecerá daqui para frente não sabemos exatamente diante do nervoso cenário financeiro mundial, mas algo é certo, não existem mais bobos, ao menos por muito tempo, na ciranda financeira em que cada país por menor que seja, é um ator importante. E o "não" grego do dia 05/07, representou no mínimo a recuperação da auto-estima daquele povo, obrigando os credores a repensar sobre os métodos de se levar vantagem sobre tudo e todos. #Negócios #Governo #Crise econômica